Debate: A correspondência literária vai migrar para o e-mail?
O lançamento de "Eles Foram Para Petrópolis", correspondência virtual entre Mario Sergio Conti e Ivan Lessa, acende o debate sobre o futuro da publicação de cartas. Em que o e-mail ganha e perde ao substituí-las?
Laila Abou Mahmoud
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Já se cogitou a hipótese de que o escritor modernista Mário de Andrade, se estivesse vivo hoje, seria um blogueiro prolífico, estaria plugado à internet por MSN, Orkut, Facebook, twitter e, seguramente, mandaria um número assustador de e-mails por dia (leia aqui uma matéria sobre o livro de cartas de Mário de Andrade mais recente, a correspondência com o fazendeiro Pio). Mas os e-mails seriam um substituto à altura das cartas? Entenderíamos a obra do escritor da mesma forma a partir deles? Ou os blogs é que fariam esse papel? Em que historiadores e estudiosos ganhariam e perderiam, com a substituição das cartas, no registro da vida e da produção dos escritores?
Segundo o crítico literário e escritor Silviano Santiago,
As cartas são como fotografias de determinadas opiniões sobre a arte e a vida de um autor. Elas podem ser utilizadas como documentos históricos tanto para entender determinado período artístico e literário, como para construir a biografia de sua vida e de sua obra. Elas podem ainda, muitas vezes, servir como laboratório para exercícios literários. Sempre trocadas entre duas pessoas e cobertas de sigilo. Como os e-mails. Que diferem, no entanto, nos quesitos velocidade, estilo mais contido e concisão.
Poucos impressos de materiais eletrônicos
As cartas são um gênero à parte. Nem biografias, nem parte da obra artística de um escritor, há ainda certa resistência em estudá-las e publicá-las em si, e não como pretextos para estudos, explica o estudioso de cartas Emerson Tin. Doutorado no tema, ele organizou a compilação de cartas Para Sempre: Cinqüenta Cartas de Amor de Todos os Tempos (Editora Globo) e a de tratados sobre a escrita epistolar: A Arte de Escrever Cartas (Editora Unicamp).
A publicação de compilações de e-mails, assim como de cartas, no Brasil ainda é incipiente. É possível conhecer a compilação da correspondência eletrônica trocada entre Saramago e o compositor italiano Azio Corghi no final da edição da peça Don Giovanni ou O dissoluto absolvido (também da Companhia das Letras). Corghi transformaria a peça numa ópera e o material é uma espécie de making of dessa transposição.
A troca de cartas publicada mais recentemente é o novo romance epistolar de Mario Sergio Conti e Ivan Lessa, Eles Foram Para Petrópolis (Companhia das Letras, 262 pág., R$45). Romance Epistolar? Segundo o escritor e crítico literário Silviano Santiago, autor do prefácio e das notas da Correspondência de Carlos Drummond de Andrade e Mário de Andrade, é isso mesmo. "Há apenas um destinatário", diz ele ao definir o gênero.
O próprio Mário Sergio Conti classifica a obra, composta do material publicado em uma coluna no UOL por cerca de um ano e os e-mails de seus bastidores, como uma "farsa". "Os temas escolhidos foram os que apareciam com mais frequência na troca de mensagens no UOL e na correspondência privada. Abrimos mão apenas dos ataques a amigos, a conhecidos e a desconhecidos. Não porque eles não mereçam, e sim porque, como não havia contexto, pareciam gratuitos", diz.
Escrever e-mails é diferente de escrever cartas. Quanto, depende do escritor
Para o escritor Nelson de Oliveira, o futuro da correspondência parece ser mesmo o da diluição. "Até a chegada do computador, minhas cartas eram mais longas, mais literárias, mais pensadas. Eu rascunhava à mão e depois datilografava. Hoje meus e-mails são mais rápidos, sintéticos e, muitas vezes, improvisados, porque eu adquiri o estranho hábito de digitar até quando estou falando no telefone", conta o autor que tem quatro blogues, cada um com alter-ego distinto, de acordo com suas atividades (o que assina com seu próprio nome pode ser lido aqui). Para ele, as novas formas de se comunicar - MSN, Orkut, Twitter, chats - não privilegiam textos muito longos. "Agora é necessário "falar" com mais de uma pessoa ao mesmo tempo, como numa conversação num café ou num bar", compara.
Mario Sergio Conti também sente as diferenças. "Quem vem da máquina de escrever, suponho, senta para trabalhar com uma definição mais acabada do que escreverá. Quem começou direto no computador, penso, senta com uma vaga idéia, que vai tomando forma ao sabor do teclado. No email, o missivista se solta, e escreve mais besteiras, que em cartas", diferencia o jornalista.
Se o conteúdo dos e-mails é diferente do revelado pelas cartas, alguns problemas tendem a perdurar para os futuros pesquisadores. Um deles é a dificuldade de obter autorização para a utilização do material por parte dos herdeiros. Outro, é que para escritores menos organizados ou precavidos, o risco de ver sua epistolografia perdida entre baús alheios e leilões de colecionadores é ainda pior: sem a senha de um provedor, como ter acesso aos e-mails?
Por outro lado, muita sola de sapato e espirros poderão ser poupados. Afinal de contas, a correspondência já estará digitalizada. Digitalizada? Então para que publicá-la em papel? É a dúvida que deixa Conti: "No futuro, os e-mails darão origem (ou não) aos livros de cartas. Se livros houver".
http://bravonline.abril.com.br/conteudo/assunto/cartas-vao-migrar-e-mails-477907.shtml


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