Arte: Oscar Niemeyer, Arquiteto, Brasileiro, Cidadão em Niterói

9.12 a 9.3.2008
Depois das cidades de Belo Horizonte, Curitiba e São Paulo, o Projeto Oscar Niemeyer: Arquiteto, Brasileiro, Cidadão chega a Niterói para ocupar os espaços singulares do Museu de Arte Contemporânea – MAC – dessa cidade. O MAC de Niterói já se afirmou para o Brasil e para o mundo como sinônimo de ousadia, sofisticação e tecnologia arquitetônicas, projetando essa cidade para o exterior. Além do apuro técnico, marca a edificação a integração de suas formas e de sua função com o belo panorama tropical que a rodeia, por meio da poética inconfundível de Oscar Niemeyer. Fotografias, obras de arte, instalações, vídeos e textos compõem a mostra, representando as principais fases da arquitetura de Niemeyer, sua relação com as artes e os artistas plásticos brasileiros, assim como a luta sócio-política do cidadão Oscar, exposta na grande sala do MAC. Como nas exposições anteriores do Projeto, a edição Niterói une criador à criatura, indo além da documentação e da análise, ao apresentar um olhar poético sobre a obra do arquiteto, patrimônio nacional, na qual todos nós brasileiros nos identificamos.
Marcus de Lontra Costa
Niemeyer: Arquitetura da Esperança e as Poéticas do Infinito. É com muita alegria que recebemos esta mostra “Oscar Niemeyer, arquiteto, brasileiro e cidadão”, organizada pelo Instituto Tomie Ohtake, com curadoria de Marcus de Lontra Costa. Nesta ocasião o MAC de Niterói, ao mesmo tempo que se torna uma escultura emblemática parte da exposição, vem expor a sua própria genealogia, abrigando um percurso de realizações arquitetônicas da qual é parte, que fizeram a história dos sonhos e esperanças do Brasil do século XX e, sem dúvida apontam para os desejos e devires deste novo século. É com esta oportunidade de visão panorâmica da evolução criadora de Niemeyer, que aos visitantes do MAC se oferece um exemplo de vida dedicada à arquitetura prospectiva dos devires do Brasil, como poesia do infinito. Especial agradecimento ao acolhimento da Petrobrás desta proposta, tornando possível esta celebração de vida e esperança na arte. O princípio esperança que embasa as grandes criações artísticas, é extremamente presente nas obras de Niemeyer: por um lado, ele se dá como vontade de transformação, como negação das negatividades no mundo e, por outro, afirmação da ousadia da consciência artística antecipatória, como compromisso com a inauguração do novo, que tanto inspira as vanguardas e os agentes das transformações modernas, pós-modernas e contemporâneas. Este princípio esperança emerge como elo vital com o qual Niemeyer conjuga novas estéticas com as demandas por novas éticas, no engajamento das novas idéias em formas artísticas e arquitetônicas, e dessas em ações no mundo. As poéticas do infinito seria o outro eixo vital tão presente na fecundação mútua entre geometria orgânica e geografia das obras de Niemeyer, no indissociável fluxo de trocas estéticas e simbólicas entre o dentro e o entorno de suas construções, que se inaugura na Igreja de São Francisco de Assis, na Pampulha (MG) e chega até nós, na relação que aqui se dá entre o MAC e a baía de Guanabara. Uma poética do Infinito se intui no vocabulário de formas de Niemeyer, como caminhos arquitetados de extensão do céu nas conchas, abóbadas e rampas em espirais, mas também nas percepções expandidas de relações simbólicas entre finitude das curvas do concreto armado, finitude da existência humana, e seu prolongamento pela arte, pela infinitude dos espaços e linhas dos cenários panorâmicos das montanhas, lagos e planaltos que compõem seus poemas arquitetônicos. Pelo princípio esperança, Niemeyer prospecta o devir de cada território, alcança o infinito concreto, assim como o matemático o faz por projeção e imaginação. Ao mesmo tempo, sua poética do infinito se expande da forma para processo aberto, onde se realiza uma triangulação especial entre geometria e geografias de ações que principalmente inauguram histórias de cada lugar. Esta potência inauguradora de Niemeyer inspira também os principais vôos para o espaço curvo e orgânico realizados pelas vanguardas da arte contemporânea brasileira. Em Niemeyer podemos apreciar uma evolução criadora de potências utópicas extremamente raras, pois une, em ações concretas, a inauguração de lugares de esperança, com poéticas de espaços abertos para o infinito. Assim como o arquiteto se inspira no infinito para criar a forma do MAC, esta forma impregnada de esperança se oferece para a função museu de arte contemporânea como um campo potencial de inauguração de novos valores para a vida. Daí, começamos nossa visita lá fora – como o fez o arquiteto em seu momento de concepção do MAC!
Luiz Guilherme Vergara
Diretor Museu de Arte Contemporânea de Niterói
O MAC COMO OBRA DE ARTE: uma forma artística que intui uma função – museu de arte contemporânea
“Considero que uma obra de arquitetura, para assumir categoria de obra de arte propriamente dita, precisa, como condição básica, apresentar um conteúdo mínimo de criação, ou seja, uma contribuição pessoal do arquiteto. Sem isso, ela se limita a uma repetição de formas e soluções já conhecidas, produções de escolas que aos poucos se vão tornando acadêmicas e superadas. Sou a favor de uma liberdade plástica quase ilimitada, liberdade que não se subordine servilmente às razões da técnica ou do funcionalismo, mas que constitua, em primeiro lugar, um convite à imaginação, às formas novas e belas, capazes de surpreender e emocionar pelo que representam de novo e criador; liberdade que possibilite - quando desejável – uma atmosfera de êxtase, de sonho e poesia...".
Oscar Niemeyer
Esta forma intuitiva, daí antecipatória, do MAC, ao mesmo tempo que reúne uma ilimitada herança de visões e aspirações artísticas de várias gerações, contribui para a própria reformulação ética do papel/função dos museus de arte contemporâneos – como agenciadores sócio-culturais, espaços públicos de grande circulação do imaginário artístico para múltiplos olhares, todos – “ricos e pobres”, assim como todas as idades. Aqui a forma inspirada de Niemeyer lança as bases de uma consciência antecipadora para uma função expandida dos museus de arte contemporâneo, invertendo as regras acadêmicas e funcionalistas da arquitetura moderna. A intuição, o desejo e sonho que modelam a visão da forma do MAC na paisagem estabelecem concretamente um funcionalismo invertido: a forma do MAC não segue uma função museu determinada ou determinística a priori, segundo os modelos existentes, contra os quais os próprios discursos artísticos contemporâneos também se rebelaram. Esta inversão radical se dá pela potencia artística na criação dos espaços circulares e abertos do MAC que aponta também para uma função aberta aos processos das práticas artísticas contemporâneas. A forma do MAC como obra de arte inaugura uma função de museu aberto para o devir, de memórias futuras e experiências presentes, assim se alinhando com as próprias práticas artísticas contemporâneas.
Luiz Guilherme Vergara
Diretor Museu de Arte Contemporânea de Niterói

Comentarios