Cultura: Leilão de manuscritos de Fernando Pessoa gera polêmica

DAYANNE MIKEVIS
da Folha Online

Um leilão de manuscritos e objetos de Fernando Pessoa, que acontece na próxima quinta-feira (13) em Portugal, causa polêmica no país.

No catálogo, há 70 lotes, como fotos de Pessoa bebê --lance mínimo: 700 euros (R$ 1.914)-- e objetos que custam de 50 mil euros (R$ 136,7 mil) a 100 mil euros (R$ 273,5 mil), como uma arca que pertenceu ao poeta.

Mas o centro da discórdia são os manuscritos do escritor.

A família se comprometeu a vender o espólio do autor ao governo português na época em que negociou os documentos que hoje estão na Biblioteca Nacional e na Casa Fernando Pessoa, ambas em Portugal.

O pesquisador Jeronimo Pizarro Jaramillo, que fotografou os documentos que agora vão à leilão, ficou surpreso quando a família anunciou que iria leiloar parte do espólio.

Em 2007, Jaramillo se aproximou aos familiares ao saber de um leilão ocorrido em dezembro daquele ano. Autorizado pelos herdeiros, ele passou a registrar os documentos.

"Quando o governo pagou, pagou pela totalidade. O que aconteceu foi descobrir que a família havia ficado com 10% deles [dos documentos]", disse o pesquisador, que também afirmou que o material não foi avaliado devidamente antes de ser colocado à venda.


Valor

A família não reconhece a importância de diversos papéis, segundo o pesquisador. Parte do material estaria relacionada aos documentos das duas instituições que possuem manuscritos do poeta, e os papéis poderiam enriquecer pesquisas sobre Pessoa.

"Mais da metade dos papéis a família não sabe do que se trata", afirmou o pesquisador.

Jaramillo exclui de tal categoria o dossiê Pessoa-Crowley, como a imprensa local chama a troca de correspondências entre o português e o ocultista britânico Aleister Crowley. Essas cartas só foram conhecidas graças a um livro publicado por um dos sobrinhos do poeta.

"Essa parcela é a que foi editada por um sobrinho e isto terá valor razoavelmente, quer dizer, já se percebe do que se trata", afirmou Jaramillo.

"É uma situação difícil, porque acho que aí há coisas muito importantes e peças que faltaram em muitos livros que já foram publicados. Eu acho que não há nenhum livro, nenhuma obra, nada a descobrir, mas há muitas coisas que completariam os trabalhos de muitas pessoas e a família vai entregar para um leilão material que não tem estudo de valor", disse Jaramillo sobre o que se pode perder em termos de pesquisa literária com o leilão.

Luís Trindade, da P4LiveAuctions, organizadora do evento, afirma que a família não pretende se manifestar antes que ocorra o evento do próximo dia 13. O leiloeiro afirmou que é parte da herança dos familiares e que o leilão é legítimo.


Compra

Há meses os jornais portugueses divulgam o leilão, que pode ser o último originário da leva de manuscritos que estava em poder da família.

A organização do evento teme que manuscritos importantes como o chamado dossiê Pessoa-Crowley seja vendido para o exterior, como colocou Kathleen Gomes no jornal "Público" em maio deste ano.

Uma outra questão essencial é a da dispersão dos documentos. "Há obviamente a questão de que os documentos serão separados", afirmou Jaramillo.

O Ministério da Cultura de Portugal chegou a manifestar interesse em adquirir lotes do leilão. Em junho, o ministro José António Pinto Ribeiro disse que o Estado compraria o espólio do escritor.

Ele afirmou ainda que parceiros da iniciativa privada que abraçassem o projeto eram bem-vindos.

No entanto, posteriormente, o órgão não comentou mais o assunto com a imprensa portuguesa, citando a possibilidade de que anúncios deste tipo inflariam o preço atribuído aos lotes.

"Eu gostaria de pensar que o Ministério da Cultura tenha as possibilidades financeiras para comprar. Eu tenho certa dúvida", afirmou Jaramillo, que disse que se interessaria em adquirir algo se tivesse meios para tanto.

"Se pudesse compraria, mas claramente não posso", declarou o pesquisador.







http://www1.folha.uol.com.br/folha/ilustrada/ult90u463245.shtml


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