Cine: O envelope, se faz favor
O Urso de Ouro vai ser entregie hoje e o consenso é que irá para um filme "pequeno" com tema "sério"
A exibição dos 18 filmes a concurso em Berlim terminou com a projecção de "Sweet Rush" [na foto], o novo filme do veterano polaco Andrzej Wajda, que trouxe uma forte candidata ao prémio de melhor actriz em Krystyna Janda. Ela é o centro de gravidade neste requiem miniatural em memória do seu marido, Edward Klosinski, director de fotografia de muitos filmes de Wajda, que se dispersa por três níveis de leitura. Um primeiro, ficcional, sobre uma mulher de meia idade que sofre de cancro em estado terminal sem o saber, seguido de um nível documental com flashes do processo de rodagem, e de um nível "híbrido" onde Janda, dilacerante, fala dos últimos seis meses de vida de Klosinski em monólgos magistralmente fotografadas por Pawel Edelman como quadros de Edward Hopper.
Mas, por uma qualquer ironia, é a ficção o elo mais fraco do filme, excrescência supérflua que desacelera "Sweet Rush" e o torna numa experiência intrigante mas incompleta. Há aqui qualquer coisa de testamento, tocante e sincero, mas há sobretudo uma actriz que merece o nosso aplauso e que vai ter de competir pelo prémio de interpretação feminina com um dos mais fortes painéis de actrizes dos últimos anos em Berlim.
Entre a americana Michelle Pfeiffer ("Chéri"), a peruana Magaly Solier ("La Teta Asustada"), a neo-zelandesa Kerry Fox ("Storm"), as romenas Anamaria Marinca e Hilda Péter (respectivamente "Storm" e "Katalin Varga"), a inglesa Brenda Blethyn ("London River"), a dinamarquesa Trine Dyrholm ("Lille Soldat"), a alemã Birgit Minichmayr ("Alle anderen") e Janda, o que não faltaram foram grandes momentos de interpretação feminina este ano, o que vai dar grandes dores de cabeça ao júri.
Por contraste, são poucos os candidatos óbvios a melhor actor, e o uruguaio Horacio Camandulle e o maliano Sotigui Kouyaté partem favoritos por "Gigante" e "London River"
Quanto ao Urso de Ouro, as opiniões continuam francamente divididas; consoante quem se leia ou quem se ouça, o prémio deveria ir para "London River", do franco-argelino Rachid Bouchareb, "Alle Anderen", da alemã Maren Ade ou "About Elly", do iraniano Asgahar Farhadi (que seriam Ursos honrosos, mas não premiariam o melhor cinema que se viu em Berlim este ano). O consenso é que o Urso - como aconteceu em anos anteriores - irá ser entregue a um filme "pequeno" com um tema "sério", a quem o peso do galardão possa dar uma ajuda em termos comerciais (o que exclui desde já "Chéri", de Stephen Frears).
Mas é não contar com as personalidades e idiossincrasias do júri dirigido pela actriz Tilda Swinton - e não nos espantaríamos se houvesse surpresas no palmarés, que será divulgado esta noite no Berlinale Palast, antecedendo a projecção do filme de encerramento "Eden á l'Ouest", de Costa-Gavras, e transmitido em directo na televisão pelo canal 3sat a partir das 19h30 (18h30 de Lisboa).


Comentarios