Debate: Tate e National Gallery chegam a novo acordo sobre o que cada uma pode mostrar
Algumas obras deverão agora trocar de mãos. Segundo "The Guardian" cerca de 50 obras que deveriam estar com a Tate estão na National Gallery, enquanto apenas três obras da National Gallery estarão com a Tate
Foram quatro anos de guerra, mas dois dos maiores gigantes da museologia britânica - a National Gallery e o grupo Tate - parecem ter chegado finalmente a acordo. Um acordo sobre como dividir entre eles as suas colecções e mostras conseguido a apenas dias da inauguração de "Picasso: Chalenging the Past" - qualquer coisa como "Picasso: Desafiar o Passado" - que abre amanhã, ficando até 7 de Junho na National Gallery.
Prevista como um "blockbuster", a exposição, focada nas respostas que a obra do mestre do cubismo espanhol foi dando ao legado pictórico da grande tradição europeia, arriscava cair num buraco - ou, antes, ser alvo de disputa - já que, segundo estabelecido em 1996, o território mais natural de Pablo Picasso (1881-1973) seria a Tate.
No acordo de 1996 estipulava-se o ano de 1900 como linha de cisão entre o campo operativo dos dois museus, ambos ligados ao Estado. E foi o que o novo acordo veio restabelecer. Assim, e em traços largos, a National Gallery fica com a custódia da produção artística internacional até 1900, a Tate Britain com a produção britânica de 1500 até à actualidade e a Tate Modern com a produção internacional de 1900 à actualidade.
A imprensa britânica não publicou ainda declarações de Nicholas Penny, o director da National Gallery que, em Março do ano passado, acabado de chegar à instituição, afirmou publicamente que este museu "foi criado para receber arte contemporânea". Em Setembro de 2008 afirmou: "A ideia não é chegar a um acordo. Não estamos satisfeitos com 1900 como fim definitivo e absoluto da National Gallery."
Mas, mesmo antes da nomeação de Penny para a direcção do museu, a National Gallery já há algum tempo vinha manifestando revolta contra as balizas históricas que lhe estavam impostas, nomeadamente com um importante programa de residência de artistas.
De qualquer forma, perante o novo acordo, há passos a dar: algumas obras caídas do lado errado da barricada deverão agora trocar de mãos. Segundo o diário britânico "The Guardian" cerca de 50 obras que deveriam estar com a Tate estão na National Gallery, enquanto apenas três obras da National Gallery estarão com a Tate - um Matisse, um Monet e, ironia das ironias, um Picasso, um dos Picasso da nova exposição da National.
Também segundo o "Guardian", uma das actas da Tate, de 2005, inclui uma declaração de Nicholas Serota, o director do grupo Tate, afirmando que "a curto prazo, o acordo não [é] em favor da Tate porque [implica] que 50 pinturas tenham sido emprestadas à National Gallery".
O acordo original foi assinado quando se tomou a decisão de criar a Tate Modern. Uma declaração de 1996 diz: "A decisão de criar [a Tate Modern] oferece uma nova oportunidade de repensar a distribuição de obras entre [as diversas] galerias [do Estado]. Grandes artistas cujo trabalho esteja na viragem do século tirarão o melhor partido, continuando a ser apresentados, quando possível, por todas as galerias."
Um relatório de Novembro de 2005 explica também que o acordo foi feito "porque a colecção nacional de pintura europeia cobrindo o período de 1875 a 1910 estava dividida entre duas instituições de uma forma que não deixava nenhuma com uma representação muito satisfatória".
O mais recente acordo não foi disponibilizado ao "Guardian", e tanto Penny como Serota se terão recusado a fazer quaisquer comentários. Contudo, o jornal terá sabido que a regra de 1900 se mantém, reconhecendo a Tate que a National Gallery possa querer adquirir obras do século XX de artistas normalmente mais associados ao século XIX, como Cézanne, Monet e Renoir, da mesma forma que a Tate poderá querer adquirir obras do século XIX de artistas normalmente mais ligados ao século XX. Ter-se-á também estipulado que as exposições temporárias não terão que ficar confinadas às balizas históricas das respectivas instituições, contando-se com o bom senso das direcções para não haver duplicação e sobreposição de missões.
Já em Novembro a National Gallery vai ter uma grande instalação da dupla Ed e Nancy Kienholz, uma obra que recria as ruas de prostituição do "red light district" de Amesterdão - pretende-se que lance novas luzes sobre as galerias de pintura holandesa do século XVII.


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