Música: Machaut, músico e/ou poeta

por Augusto de Campos



O caso de Guillaume de Machaut (1300-1377) é raro na historiografia musical e literária. O grande músico francês, revalorizado pelos modernos radicais como Varèse, Boulez, Ligeti, é o criador da deslumbrante Messe de Nôtre Dame, a primeira missa polifônica completa composta por um só autor, obra ascética e iluminada que é a encarnação do gótico em música, na numerologia de suas bizarras simetrias a quatro vozes, na angulosidade de seus desenhos harmônicos eriçados de intervalos dissonantes, na arquitetura perfeita de suas células isorrítmicas. Mas ele é também poeta relevante, embora sua obra literária não tenha sido até hoje realçada como merece.


Enquanto se multiplicam as gravações de sua Missa e suas canções, os dois volumes que contêm a sua poesia lírica, com organização de Vladimir Chichmaref — Poésies Lyriques (Paris, Campion, 1909)—, reimpressos em fac-símile em 1973 (Genebra, Slatkine), não foram mais reeditados. Assim, também a coleção das suas obras, em três tomos, supervisionada por Ernest Hoepffner (Oeuvres de Guillaume de Machaut, Paris, Firmin Didot, 1908-1911 e Champion, 1921). Além de algumas publicações parciais de sua obra, o que saiu, em 1999, em bem cuidada edição crítica, bilíngue, do francês antigo para o moderno, elaborada por Paul Imbs com a colaboração de Jacqueline Cerquiglini–Toulet e Noël Musso, e espantosamente em livro de bolso parisiense ("Le Livre de Poche", Libraire Générale Française), foi Le Livre du Voir Dit (O Livro do Vero Relato), narrativa epistolar entremeada de poemas, sem dúvida de muito interesse, mas onde se encontra apenas parte de sua poesia lírica. Esta pode exprimir-se nas complicadas estruturas dos "virelais" e dos "lays", que põem num mesmo poema estrofes variadas com versos de duas a dez sílabas e rimas iguais em cascata, e ainda em outras formas aparentemente mais simples, as remançosas baladas, às vezes coloridas de um estranho clima alegórico, como "Phyton, le merveilleux serpent", e os rondós minimalistas como "Quand Colin collait colie", de ousadas aliterações e paronomásias, ou o pré-conceptista e metalinguístico "Ma fin est mon commencement".


Desses poemas (cerca de 400) mais de uma centena foi musicada por Machaut em composições de até quatro vozes, que transfiguram os textos mais convencionais e arcoirisam de desenhos melódicos e harmonias imprevistas os mais significativos. Os "virelais" e os "lays", como "Pour ce qu'on puis mieus retraire", têm musicalização silábica, que torna os textos mais reconhecíveis, e são predominantemente monódicos. Com tratamento polifônico, as baladas (em geral três estrofes de 8 linhas com estribilho) e os rondós (apenas 8 linhas, onde as primeiras duas se repetem no final, e a primeira mais uma vez no quarto verso, com o reforço de rimas ricas ou paronomásticas) são meandros de melismas, que se distendem paroxisticamente no minimalismo textual dos rondós. As pausas e as síncopes, provocadas pelo sutil entrelaçamanto das vozes, frequentemente na modalidade do "hoquetus" (onde uma voz entra no vazio da outra, em rápida sucessão —"dum unus cantat alter tacet", enquanto um canta o outro cala), completam a estrutura sonora inusitada. Nas baladas triplas e nos motetos, o emaranhado das linhas sobrepõe ou entremeia até três textos diferentes simultaneamente cantados, como na tripla "De triste cuer"/"Quant vrais amans"/"Certes, je di", onde os poemas têm em comum, além das rimas, o estribilho "Triste, dolent, qui larmes de sanc pleure", para onde convergem as vozes díspares. Como observa Gilbert Reaney, musicólogo inglês, especialista na obra de Machaut, o uso que este faz da dissonância é extremamente elaborado, em parte devido aos vocais sincopados de duas ou mais vozes, que envolvem formações harmônicas com intervalos de segundas, quartas, sétimas e nonas.


Descendente dos trovadores da antiga Provença e dos "trouvères", Machaut eleva, um século depois, os textos líricos a um patamar de alta complexidade musical, impulsionado pelos seus predecessores Leoninus e Perotinus, os primeiros polifonistas da Escola de Nôtre Dame. Mais que um poeta-músico, é um músico-poeta. "Ma fin est mon commencement", talvez a obra-prima da sua lírica profana, constitui uma pequena jóia de música-poesia, perfeita, única, onde a equivalência entre o verbal e o não-verbal se revela mais intensa, ainda que o texto pareça extremamente simples diante de sua elaborada exploração musical. Mas é essa simplicidade extrema — às vezes mais difícil de atingir do que o difícil — que propicia o seu inusitado desenvolvimento sonoro. Eis o poema, que tem a forma do rondó, no original e em tradução:


MA FIN EST MON COMMENCEMENT

Ma fin est mon commencement

Et mon commencement ma fin.

Est teneüre vraiement

Ma fin est mon commencement.

Mes tiers chans trois fois seulement

Se retrograde et einsi fin.

Ma fin est mon commencement

Et mon commencement ma fin.



MEU FIM ESTÁ NO MEU COMEÇO

Meu fim está no meu começo

E meu começo no meu fim.

Outro destino não conheço

Meu fim está no meu começo.

A canção três vezes do avesso

Se retrograda e acaba assim.

Meu fim está no meu começo

E meu começo no meu fim.



Consciente ou inconscientemente, o tema iria reecoar, em nossa época, nos Quatro Quartetos de T.S. Eliot: "in my beginning is my end… in my end is my beginning".

Este, o trecho inicial da composição, na interpretação do Hilliard Ensemble [a imagem do clip é uma miniatura (c.1370-1380) em que aparece o próprio Machaut — a figura à direita]:


Na transposição musical de Machaut a distensão melismática se torna isomórfica com o tema da recorrência entre começo e fim, fim e começo. Mas o tratamento icônico-musical que lhe dá Machaut vai ainda mais longe. Ele cria com as três vozes uma espécie de cânon em espelho: na parte superior as linhas melódicas são uma o contrário da outra, invertendo as mesmas notas, do começo ao fim, enquanto na terceira voz — o contratenor — a melodia reverte sobre si própria a partir da metade da composição. Esse engenhoso compósito inter e intra-especular acaba por estruturar um todo harmônico e contrapontístico de extraordinária beleza. O texto, que se autodescreve, menciona, talvez pela primeira vez, segundo Reaney, a expressão "retrogradar", hoje incorporada à terminologia musical.


Em nossa época, Webern, que Herbert Eimert denominou "o arquiteto monádico da forma-espelho", seria um exímio cultor dessa arte, embutida no próprio método dodecafônico, levada por ele ao extremo radicalismo nas células microespeculares do seu "Concerto para 9 Instrumentos" op. 24, com resultados magníficos pela clareza cristalina de sua arquitetura. Mas o diamante de Machaut brilha através dos tempos, signo da obra grandiosa do músico-poeta de Nôtre Dame, cuja poesia clama por uma reedição à altura das inúmeras releituras musicais que lhe foram sendo crescentemente dedicadas ao longo do século 20, para não mais cessar.








Augusto de Campos nasceu em São Paulo, em 1931. Poeta, tradutor, ensaísta, crítico de literatura e música. Em 1951, publicou o seu primeiro livro de poemas, O REI MENOS O REINO. Em 1952, com seu irmão Haroldo de Campos e Décio Pignatari, lançou a revista literária "Noigandres", origem do Grupo Noigandres que iniciou o movimento internacional da Poesia Concreta no Brasil. O segundo número da revista (1955) continha sua série de poemas em cores POETAMENOS, escritos em 1953, considerados os primeiros exemplos consistentes de poesia concreta no Brasil. O verso e a sintaxe convencional eram abandonados e as palavras rearranjadas em estruturas gráfico-espaciais, algumas vezes impressas em até seis cores diferentes, sob inspiração da Klangbarbenmelodie (melodia de timbres) de Webern. Em 1956 participou da organização da Primeira Exposição Nacional de Arte Concreta (Artes Plásticas e Poesia), no Museu de Arte Moderna de São Paulo. Sua obra veio a ser incluída, posteriormente, em muitas mostras, bem como em antologias internacionais como as históricas publicações Concrete Poetry: an International Anthology, organizada por Stephen Bann (London, 1967), Concrete Poetry: a World View, por Mary Ellen Solt (University of Bloomington, Indiana, 1968), Anthology of Concrete Poetry, por Emmet Williams (NY, 1968). Sua poesia está coligida principalmente em Viva Vaia (1979, 4ª ed. 2008), Despoesia (1994) e Não (2003, 2ª ed. 2008). Últimos estudos e traduções: Poesia da Recusa (2006), Quase-Borges (2006) e Emily Dickinson: Não sou Ninguém (2008). Site: http://www2.uol.com.br/augustodecampos/home.htm E-mail: a.campos@uol.com.br









http://www.cronopios.com.br/site/ensaios.asp?id=3817

Comentarios

Entradas populares