Música: Marcos Portugal sem preconceitos
A música antiga luso-brasileira é um repertório menor? Oiçam hoje as "Matinas de Natal" de Marcos Portugal na Gulbenkian
Quando chegou à Europa em 1983 para estudar na Schola Cantorum de Basileia (uma espécie de Meca da música antiga), o contratenor brasileiro Luiz Alves da Silva achava que não valia a pena perder tempo com o repertório luso-brasileiro, pois este não teria qualidade suficiente. "Tinha colocado esse preconceito na minha cabeça porque as interpretações que conhecia eram muito más", explica durante a sua última passagem por Lisboa.
Mudou de opinião quando começou a aprofundar a pesquisa e a transcrever manuscritos. "Naquele mar de partituras há, de facto, muita coisa ruim, mas há também várias pérolas que merecem ocupar um lugar na história da música universal."
A reabilitação do repertório luso-brasileiro do século XVIII e dos inícios do século XIX passou a ser uma das suas metas e o principal objectivo do trabalho com o Ensemble Turicum, agrupamento sediado em Zurique que fundou em 1990 com o violinista suíço Mathias Weibel. Nos últimos dez anos, a música brasileira, portuguesa e napolitana (que serviu de matriz às anteriores) e a obra do compositor austríaco Sigismund Neukomm (que viveu no Brasil entre 1816 e 1821) têm preenchido a maior parte dos programas do grupo. É neste contexto que surge a interpretação das "Matinas de Natal", de Marcos Portugal (Lisboa, 1762 - Rio de Janeiro, 1830), que terão a sua estreia moderna em Lisboa no dia 16 no âmbito do ciclo Música Antiga no Brasil Colonial, promovido pela Fundação Calouste Gulbenkian. A mesmo obra foi apresentada com grande sucesso em Zurique, em 2007, e em Março será registada em disco pela etiqueta Paraty.
Pouco tempo depois de a corte portuguesa se ter instalado no Rio de Janeiro em 1808, o Príncipe Regente D. João preocupou-se em reforçar os quadros da Capela Real. Entre os músicos que chamou para o seu serviço encontram-se vários "castrati" italianos e Marcos Portugal, que já trabalhava para a monarquia e cuja produção operática gozava de uma impressionante projecção europeia - as suas óperas foram representadas nos principais teatros europeus, do Scala de Milão a São Petersburgo. Menos conhecida é a sua imponente produção musical religiosa, um domínio que se tem ressentido de alguns preconceitos históricos e da escassez de edições modernas em partitura.
Mitos
"A aposta nas Matinas de Natal surgiu na sequência da gravação da Missa Pastoril, do brasileiro José Maurício Nunes Garcia", conta Luiz Alves da Silva. "Ambas foram interpretadas no Natal de 1811, poucos meses depois de Marcos Portugal ter chegado ao Brasil, e é notório que os dois compositores colaboraram. A orquestração é semelhante, sem violinos, e há um tema musical recorrente."
Para o musicólogo António Jorge Marques, que está a preparar o catálogo da música sacra de Portugal no âmbito do seu doutoramento na Universidade Nova de Lisboa, esta colaboração vem desmentir alguns mitos. "A partir dos finais do século XIX, a maioria dos trabalhos sobre Marcos Portugal oriundos do Brasil seguem a tese do Visconde de Taunay [1843-1899] que pretendia elevar José Maurício à categoria de herói nacional. Criou assim uma oposição artificial que contrapunha o tímido e genial mulato brasileiro, representante da escola germânica, ao vaidoso e intriguista Marcos Portugal, um exemplo da decadente escola italiana." António Marques refere que não há estudos que confirmem estas opiniões e que as fontes primárias contam outra versão da história.
"As Matinas de Natal revelam um grande equilíbrio entre o virtuosismo vocal e a qualidade intrínseca da música", explica Luiz Alves da Silva. "Critica-se muito o estilo operático de Marcos Portugal - e de facto há árias muito virtuosísticas - mas neste caso a música deixa sempre transparecer uma religiosidade sincera. A orquestração também é muito boa, com uma maravilhosa parte de clarinete, belos solos de violoncelo e uma escrita para órgão bastante desenvolvida."
António Marques realça também a variedade de soluções adoptadas pelo compositor como forma de contornar um texto litúrgico repetitivo. "É música que por vezes nos faz sorrir mas que também tem passagens profundas, que combina a contemplação com a grandiosidade", diz o musicólogo. "Trata-se de uma obra de transição entre o estilo 'concertato' desenvolvido em Portugal e o estilo brasileiro, mais pomposo e grandiloquente. É normalmente este último que as pessoas identificam com Marcos Portugal. Encontra-se em obras que exaltam o poder real como a música composta para a aclamação de D. João VI ou para o casamento de D. Pedro com D. Leopoldina, mas há que ter em conta que se tratava de música funcional."
António Marques localizou mais de 130 obras sacras completas de Marcos Portugal, que subsistem em mais de 700 cópias manuscritas em Portugal e no Brasil. O seu maior desejo é que esta música possa ser divulgada e defendida por grupos com o nível do Ensemble Turicum, com instrumentos da época e com consciência das práticas de execução históricas.
Formado por membros de várias nacionalidades, na sua maioria antigos alunos da Schola Cantorum de Basileia, o Ensemble Turicum atingiu nos últimos anos um estatuto de referência na área da música antiga luso-brasileira, ilustrado por gravações como os "Responsórios", de António dos Santos Cunha, a "Missa Pastoril", de José Maurício, ou o CD "Música Napolitana dos Arquivos Portugueses" (etiqueta K. 617). Nos próximos meses passará a ser também o responsável pela estreia discográfica da obra religiosa de Marcos Portugal, um passo decisivo na reavaliação da produção do compositor e dos preconceitos que têm ensombrado a sua música.


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