Música: Morrissey está nu mas indecifrável

20.02.2009 - Pedro Rios

Tem 50 anos e despe-se na capa interior do novo disco, "Years of Refusal". Mas permanece indecifrável, uma das personagens mais misteriosas da música popular.


E eis que, em 2009, Morrissey surge nu, literalmente, na capa interior de "I'm Throwing My Arms Around Paris", o primeiro "single" do novo álbum, "Years of Refusal" (OK, mentimos: há um disco de vinil a tapar os órgãos genitais). O outrora franzino, nada musculado e depilado vocalista dos The Smiths, surge entroncado, sem receio de exibir as pilosidades corporais, numa imagem que de misterioso tem pouco (podia ser a capa de um disco punk orgulhosamente insolente).

Uma mera manobra publicitária de um artista com quase 50 anos? Uma assunção de que afinal é mais um entre os homens, para infortúnio dos fãs mais dedicados? Ou mais um sinal de um artista que tem feito a sua carreira num permanente jogo de tensão entre o que projecta (dúbio, contraditório, misterioso) e o seu real significado? A "persona" Morrissey coincide com o homem Steven Patrick Morrissey? E será que isso interessa?

O exibicionismo é o mesmo

A Mark Simpson, autor de "Saint Morrissey" (2004) e, entre outras actividades, comentador no jornal britânico "The Guardian", não interessa saber a verdade. A "psico-biografia" (como ele lhe chama) que escreveu é reflexo disto mesmo: "Nunca conheci Morrissey, nem os seus amigos. Não quis conhecer a realidade, não quis ser contaminado por ela", diz este especialista em cultura pop e masculinidade (foi o primeiro a usar o termo "metrossexual"). Simpson partiu das letras e das entrevistas do ex-Smiths para escrever algo "muito subjectivo, pessoal e louco": a perspectiva de um fã, no fim de contas, a perspectiva que, ao que diz, Morrissey gostaria de ler. "Será um erro levar muitas canções à letra, mas na maior parte dos casos ele parece estar a falar sobre os seus sentimentos". Mas, "se calhar, engana-nos a todos e tem montes de sexo, droga-se, diverte-se imenso".

Simpson reconhece que Morrissey "parece diferente" do que era nos Smiths, mas lembra que "o exibicionismo é basicamente o mesmo - porventura agora há uma vontade de dizer: 'Sim, é assim que sou hoje, lida com isso e adora-me por ser assim, como adoravas antes'. O trabalho do Moz [a alcunha com que os fãs se referem a Morrissey] sempre teve um lado atrevido, descarado, exibicionista. E sempre teve muito sexo, muito dele gay", acrescenta. É também uma questão de afirmação do Morrissey pré-cinquentão (faz meio século em Maio): "Tal como na capa do novo álbum [em que aparece com um bebé nos braços], está-se a justapor à juventude, a tomar consciência, de uma forma que poucos 'performers' fazem hoje, de que já não é um jovem. Mas também de que ainda não cresceu verdadeiramente".

"Entre as pessoas que eu queria ver semi-nuas não está o Morrissey", ri-se Pedro Mexia. Para o crítico literário, director interino da Cinemateca e fã dos Smiths (a sua banda favorita), Morrissey tende a ser "primário" ou directo nas provocações, uma espécie de vingança em relação ao mistério das letras. "É melhor actor do que cantor", acredita David Bret, autor de dois livros sobre Morrissey. "Acredito que ele não come carne, mas tudo o resto é 'persona'", refere. Ao posar nu, parece "uma piada": "Está a exibir a sua sexualidade, está a dizer aos fãs que sempre foi assim, mas que eles foram ingénuos ao ponto de acreditar nos disparates que ele lhes disse no passado".

As máscaras de Moz

A fotografia que motiva tanta conversa é mais um dos vistosos actos públicos de Morrissey, que constituem um "corpus" que corre paralelo à música e que com ela se relaciona, num todo repleto de contradições. Eis algumas: é das pessoas mais adoradas do mundo e continua a cantar a dor de não ser amado, é o literato que arma polémicas com outros músicos, o furioso vegetariano e fã de Obama que tem no currículo declarações em que alguns vêem racismo, é o cantor pop misterioso com letras brutalmente directas. A figura é tão complexa que os quatro especialistas na sua vida e obra que o Ípsilon entrevistou por telefone (Simpson, Bret, Len Brown e Gavin Hopps) divergem em pontos fundamentais - alguns lançam até farpas sobre o trabalho dos outros.

Len Brown, que conhece Morrissey há mais de 20 anos (entrevistou-o muitas vezes) e é autor de "Meetings with Morrissey" (2008), considera que o princípio de Oscar Wilde ("A vida imita a arte, muito mais do que a arte imita a vida") se aplica inteiramente a Morrissey. Lembra a canção "Christian Dior" ("You wasted your life/On grandeur and style/And making the poor rich smile"), que "celebra a importância de alguém sacrificar a sua vida pessoal pela arte" e a "importância de focar - para se ser artista tem que se o ser 24 horas por dia". Os heróis de Morrissey (Wilde, James Dean, Humphrey Bogart) "também foram assim". Nessa canção, um lado B do "single" "In the Future When All's Well" (2006), o próprio Morrissey assume: "I discipline my days just like Christian Dior".

Para Mexia, "é muito pouco interessante saber se é fingimento", mesmo que reconheça existir "um lado de ambiguidade interessante", um "jogo autobiográfico" que fascina e que permite a Morrissey "chegar a vários públicos". "Há muitas referências inglesas, mas ao mesmo tempo aquilo é mais ou menos válido para qualquer jovem adulto ou adolescente. É a grande força dele", refere Mexia, que vê no cantor inglês alguém "extremamente directo", que diz "aquelas coisas que não se devem dizer". "Uma coisa muito adolescente, óptima."

Para David Bret, o Morrissey solitário e miserável é "um truque" de uma figura pop que vive desta imagem. Simpson não acredita nesta hipótese: se o cantor "quisesse vender procurava a novidade", argumenta. Dá o exemplo da letra de "I'm Throwing My Arms Around Paris", o primeiro "single" do novo álbum (o refrão - "I'm throwing my arms around all of Paris because only stone and steel accept my love" - é miséria Morrissey "vintage"). A "nudez deste homem de quase 50 anos, essencialmente a chorar para nós", deixa Simpson perplexo.

Ao contrário de Simpson, Brown ou Bret, Gavin Hopps, autor de "Morrissey: The Pageant of His Bleeding Heart" (edição agendada para Abril), não quis aproximar-se do "retrato biográfico, nem chegar ao homem por trás das letras". Porquê? Porque Morrissey é "inacessível", "encena uma certa intimidade, convida a esse tipo de leitura, mas tal não significa que ela se possa fazer". Arruma-se a pessoa e fica-se com a "persona", um "conjunto de tradições": "é tímido, mas conta tudo e diz o que quer; é melancólico, mas é divertido; o público adora-o e diz-se não amado. É sempre isto e aquilo. Não precisamos de fazer sentido de tudo isto".

Para Hopps, que é investigador na universidade escocesa de St Andrews e especialista em literatura romântica (os seus colegas riem-se da admiração intensa que ele tem pelas letras de Morrissey), é um "disparate" achar que existe uma "pessoa explicável" pelas letras. "Toda a gente que estudou literatura sabe que isso é um disparate. No centro do trabalho dele está uma preocupação real com a escuridão. Não acho que seja um truque para entreter ou fazer dinheiro. O erro é ver nessas letras Morrissey num canto a chorar", esclarece.

No livro, Hopps faz a análise críticas das letras de Morrissey e compara-as com as obras de escritores como Lord Byron, George Eliot, Wilde e Samuel Beckett. "Os textos que já existem sobre Morrissey tendem a desvalorizar as qualidades estéticas do seu trabalho e, num esforço de 'destapar' o artista, negligenciam a arte", argumenta. Paradoxalmente, diz Hopps, "fazem-no parecer menos estranho". Mark Simpson responde, dizendo que Hopps tem "a perspectiva de um académico", muito diferente da sua, a de um fã. "Morrissey, ao contrário da maioria das pessoas, não cedeu ao que vende. Está sempre empenhado naquele conceito de si próprio. Por causa disso, os seus fãs tornam-se exclusivos", afirma.

Mexia diz que o ex-Smiths "tem uma certa licença poética" para ser esta soma de contradições. A forma "mais produtiva" de encarar Morrissey, para o crítico literário, é pelo "discurso do 'outsider', do incompreendido", em detrimento de exercícios psicanalíticos a partir do que ele revela (ou finge revelar).

Simpson, assumidamente gay, vê na recusa de uma definição sexual de Morrissey ("podemos dizer que ele não é 'straight'", mas não que é gay, acredita) uma "declaração positiva". "Esta ideia de que ele devia assumir-se.... Mas assumir-se como? Ele já o fez. Assumiu-se como um estranho, um 'outsider'. Ser 'straight' não é mau, mas não ser 'straight' tem muito a ver com criatividade".

É o "ídolo anti-pop", conclui Mark Simpson. "É o inverso das restantes celebridades, que é suposto serem transparentes. Suspeito muito que sabemos menos dessas celebridades do que sobre Morrissey, que esconde tanto".

http://ipsilon.publico.pt/musica/texto.aspx?id=224096

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