Arte: O Demolidor de Clichês
Guignard sempre foi visto como representante do nacionalismo modernista. Uma exposição em Porto Alegre mostra um pintor bem mais complexo, que evitava os cacoetes da escola
Por Bruno Maya
Até recentemente, o pintor fluminense Alberto da Veiga Guignard (1896-1962) foi visto como integrante do time modernista, um nome menor numa escalação capitaneada por Cândido Portinari (1903-1906) e Di Cavalcanti (1903-1962). De acordo com os cânones dessa escola, Guignard buscaria retratar em seus quadros o imaginário nacional — e suas telas repletas de bandeirinhas brasileiras seriam a prova disso. O tempo mostrou que se tratava de uma simplificação. Enquanto a Semana de 1922 eclodia, Guignard pincelava na Europa, onde viveu a infância e absorveu influências dos franceses Paul Cézanne (1839-1906) e Henri Matisse (1869-1954). Com 33 anos, ao retornar definitivamente ao Brasil, em 1929, seu traço espontâneo destoava completamente do dos artistas do período.
A pequena mas precisa exposição Um Mundo a Perder de Vista — Guignard é valiosa justamente por mostrar a complexidade da produção do artista, concentrando-se na fase final (1929 -1961). As 43 obras que ocupam o terceiro andar da Fundação Iberê Camargo, em Porto Alegre, cumprem com êxito a proposta de mostrar que paisagens como as da série Noite de São João não são mera ode ao nacionalismo.
É bem verdade que o pintor nascido em Nova Friburgo (RJ) sempre se declarou um apaixonado por Ouro Preto, cidade para onde se mudou em 1944. Um tema recorrente em suas obras são as igrejas barrocas que surgem por entre montanhas mineiras. Um olhar mais atento, porém, percebe que a técnica refinada e o grafismo elaborado das pinturas revelam, acima de tudo, inquietação. Muito mais do que um cenário realista, as paisagens retratadas são trechos de lugar nenhum, cheios de vazios. A falta de um chão e as figuras de aspecto esfumaçado, por vezes sombrio, mostram como o artista via o Brasil das décadas de 1950 e 1960, um país ainda temeroso da urbanização que se expandia ferozmente sobre os costumes populares. São telas que buscam um apelo universal e usam uma linguagem vigorosa, alheia a qualquer retórica.
Um detalhe sutil da mostra revela como ainda não nos damos conta do valor de Guignard. A exposição acontece na fundação que leva o nome de um de seus alunos, Iberê Camargo. Lembramo-nos com frequência do pupilo. Por décadas, pouco nos detivemos no professor. Não foi por falta de aviso de Iberê, que não cansava de repetir que Guignard era um mestre universal da pintura. O tempo agora, no entanto, é de reparação: além da mostra na capital gaúcha, o Museu de Arte Moderna (MAM) de São Paulo prepara para julho uma retrospectiva das obras de Guignard.
Bruno Maya é jornalista.
Onde e Quando
Um Mundo a Perder de Vista — Guignard. Fundação Iberê Camargo (avenida Padre Cacique, 2.000, Porto Alegre, RS, tel. 0++/51/3247-8000). Quando: Até 8/3. De 3ª a 6ª, das 10h às 19h (5ª, até 21h); sáb. e dom., das 11h às 19h. Grátis.
http://bravonline.abril.com.br/conteudo/artesplasticas/demolidor-cliches-419198.shtml


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