Cultura: Arte (e mercado) no deserto

A Art Dubai decorre de 18 a 21 de Março e a Bienal de Sharjah de 19 de Março a 16 de Maio. Portugal não fica de fora

Já se sabe: com o mercado tradicional em falência, todos os olhos são postos nas alternativas presentes e futuras oferecidas por países supostamente imunes à crise, ou, no mínimo, menos susceptíveis de se desmoronarem perante ela. Por exemplo, o Dubai. No segundo maior dos Emirados Árabes Unidos, hoje visto por muitas fortunas internacionais como uma espécie de parque de diversões para adultos no meio do deserto, há uma feira de arte - a Art Dubai - que vai na sua terceira edição e, a menos de 25 quilómetros de distância, mas já no emirado ao lado, o Emirado de Sharjah, uma bienal - a Bienal de Sharjah, sob o alto-patrocínio do xeque Mohammed Al Qasimi, vai na nona edição. Este ano, e pela primeira vez, as datas das duas coincidem, aumentando expectativas, com a Art Dubai a decorrer de 18 a 21 de Março e a Bienal de Sharjah de 19 de Março a 16 de Maio. E Portugal não fica de fora. A Galeria Filomena Soares estará no "stand" 30B na Art Dubai com obras de 12 dos 24 artistas que representa. Artistas como a iraniana Shirin Neshat e a australiana Tracey Moffatt, lado a lado com quatro portugueses: Helena Almeida, João Penalva, José Pedro Croft e Vasco Araújo. Isabel Carlos, que em breve assumirá a direcção do Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian, está por detrás de uma das maiores exposições de Sharjah - a mostra "Provisions For The Future", que a comissária dedica a artistas a trabalhar temas como a imigração, a viagem, a fuga e o exílio, mas também noções de memória, história e narrativa. Através de Isabel Carlos, surgem na bienal, entre 50 artistas internacionais, nomes de três artistas portugueses ou ligados a Portugal: Ana Vidigal e Yonamine Miguel, por um lado (nomeações directas), e Fernando José Pereira, por outro (este como parte de um programa-concurso através do qual se escolheram entre 50 por cento dos nomes participantes e que teve 450 candidaturas internacionais).

Na nota de intenções para a mostra Isabel Carlos cita o neologismo encontrado pelo psicólogo e antropólogo Oliver James que define "affluenza" - uma sobreposição entre os termos "affluence" (riqueza) e "influenza" (o vírus da gripe) - para definir uma sociedade de Capitalismo Egoísta, em que as pessoas já não se definem pelo "ser" mas sim por um "ter". Sharjah, diz Isabel Carlos, "visa propor uma pausa para reflexão". Isto enquanto ali ao lado, no Dubai, as ilhas artificiais com hotéis e residências de luxo em forma de palmeira continuam a proliferar.

http://ipsilon.publico.pt/Flash/texto.aspx?id=224936

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