Cultura: "Une rencontre" com Milan Kundera
Escrito como um diário de bordo, reconstrói as referências conscientes e inconscientes de Kundera: o cinema de Fellini, o realismo mágico de García Marquez...
"Une rencontre", livro de ensaios de Milan Kundera, chegou quinta-feira às livrarias francesas (edição da Gallimard). A obra anterior do escritor, também um livro de ensaios, foi publicada há quatro anos.
O checo naturalizado francês viu-se envolvido há meses numa polémica. A revista checa "Respekt" revelou que nas suas investigações Adam Hradilek, historiador do Instituto de Estudos dos Regimes Totalitários, responsável pela gestão dos arquivos comunistas, encontrou uma nota do Ministério do Interior, de 1950, referindo que o estudante de cinema Kundera denunciara o paradeiro de Miroslav Dvoracek, piloto checo que abandonara o país em 1948, quando entraram os comunistas, e que regressara, entretanto, para acções conspirativas. Milan teria denunciado o desertor à polícia comunista checoslovaca nos seus anos de estudante, em Praga. Dvoracek foi condenado a 22 anos de trabalhos forçados, dos quais cumpriu 14.
O escritor, 79 anos, que vive desde 1975 em Paris e raramente fala aos jornalistas quebrou então o seu silêncio e negou publicamente as acusações. Neste novo livro não se refere especificamente ao caso mas condena os mecanismos sociais de difamação, a maledicência, o sentimentalismo e a estupidez.
Analisa também grandes obras da literatura de autores como Anatole France, Rabelais, Céline, Philip Roth, para chegar à conclusão de que a cultura não é um entretenimento, ela revela o que somos.
Escrito como um diário de bordo, "Une rencontre" reconstrói as referências em que Kundera diz ter-se apoiado, consciente e inconscientemente: o cinema de Fellini, o realismo mágico de García Marquez e perguntas como: "Porque é que os protagonistas dos grandes romances - como Valmont, o homem sem qualidades, Dom Quixote, etc - nunca têm filhos? Quando e quantas vezes fez Ana Karenina amor com Vronski?"


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