Cine: Viajar até ao limite com Werner Herzog
Entrevista ao cineasta alemão Werner Herzog, um dos "heróis independentes" do festival IndieLisboa, que hoje começa.
Werner Herzog, cineasta alemão nascido em 1942 em Munique, já filmou um pouco de tudo. Conquistadores espanhóis (em "Aguirre", talvez o seu mais famoso filme) e fantasmas alemães ("Nosferatu", "remake" insano do clássico de Murnau), anões (em "Até os Anões Começaram Pequenos") e gigantes (em "Invencível", um dos seus últimos filmes estreados em Portugal), soldados-crianças sandinistas (em "Balada dos Soldadinhos") e ditadores africanos ("Ecos de um Império Sombrio", sobre Bokassa). É uma obra altamente diversificada e, por vezes, febril. Em conversa telefónica, perguntamos-lhe pelo que pensávamos ser o seu último filme, "Bad Lieutenant" (um "remake" apócrifo do homónimo filme de Abel Ferrara com Harvey Keitel), e ele fala-nos do filme que já fez depois dele e do filme que está neste momento a acabar, para concluir com uma gargalhada: "trabalho ainda mais depressa do que você pensa!" E quando se pensa um pouco sobre a sua filmografia, tão vasta (cerca de 60 títulos), tão estilhaçada, tão convulsa, não é difícil imaginar que tenha sido sempre assim.
Werner Herzog é um dos "heróis independentes" do IndieLisboa deste ano (o outro é o francês Jacques Nolot), e uma parte dessa extensa obra vai estar em retrospectiva no festival. A começar já hoje, numa sessão com um "auto-retrato", "Portrait Werner Herzog", de 1986, e um retrato do seu amigo-inimigo Klaus Kinski, actor de vários dos seus filmes, "My Best Fiend", de 1999 (Herzog, que era ainda criança quando conheceu Kinski, 16 anos mais velho, terá dito uma vez que percebeu qual seria o seu futuro: ser realizador, e filmar Klaus Kinski). Herzog diz que uma retrospectiva é o processo ideal para pôr alguma ordem na aparente desordem que marca a sua obra. Nem ele tem respostas para tudo, e por mais do que uma vez na conversa que com ele mantivemos nos remeteu para a retrospectiva: "Talvez vendo os filmes em sequência isso se clarifique." Porque, diz, nunca pensou na sua obra como um simples conjunto ordenado de filmes. "A maior parte dos cineastas organiza a sua obra como um comboio: há a locomotiva, depois vem o vagão de mercadorias, as carruagens de passageiros, numa sequência linear." Deixando aos outros a metáfora ferroviária, Herzog prefere, para falar dos seus filmes, a metáfora arquitectónica: a sua obra é "como um edifício, uma estrutura intrincada onde todas as partes se relacionam com todas, sem qualquer espécie de linearidade".
Tentando encontrar, dentro deste "dinamismo" descrito pelo cineasta, dois ou três pontos fulcrais na sua obra, começámos por mencionar aquilo que não está lá, ou aparentemente está pouco: a Alemanha. Herzog vem da geração do "novo cinema alemão", uma geração de cineastas (de Fassbinder a Wenders) que cresceu no pós-II Guerra e que, em certos casos obsessivamente, se preocupou em perseguir uma maneira de pensar um relacionamento com a Alemanha enquanto país, enquanto cultura, enquanto História. Ao contrário de quase todos eles, Herzog não acha a Alemanha "interessante como assunto". Ou por outra, é "interessante como assunto", mas é um "assunto para livros, não para filmes". Esta espécie de desinteresse, nos termos em que Herzog o proclama, acaba por reflectir a complicada relação do cineasta com o público e a crítica alemã ("a Alemanha não é um país de espectadores de cinema, é um país de espectadores de televisão", disse uma vez com óbvio desprezo) e mesmo com os realizadores que foram seus parceiros de geração (o único com quem manteve e mantém uma relação próxima, conta-nos, é Volker Schlondorff).
Vem do circo
Insistindo neste ponto (a Alemanha, assunto para livros), Herzog volta a um velho credo seu: "O cinema não é algo nascido na academia, mas um espectáculo que vem das feiras e dos circos." Di-lo para reforçar o que o motiva: as sensações, as "coisas extraordinárias", o fascínio da humanidade pelos seus próprios limites - testados em cada circo pelos acrobatas e pelos domadores de feras, expostos durante séculos em feiras ambulantes por intermédio de tantas infelizes criaturas, como os anões ou as mulheres barbudas, que tiveram o azar de nascer com alguma malformação espectacular. É isso que explica que na obra de Herzog se pareça avançar indistintamente entre ficções e documentários, que para ele são, em qualquer caso, "just movies". E como tal, submetidos a um desígnio que ele acredita partilhar com o grosso da humanidade: a "ânsia por imagens novas", a crença de que a imagem é o caminho para a revelação de "uma verdade extática" sobre a condição humana. Mas não qualquer imagem: Herzog não emprega "truques digitais", porque acredita na necessidade de o espectador conseguir manter uma relação física com as imagens, e acreditar nos limites físicos que nelas são narrados.
Não há dúvida de que na obra de Herzog abundam os acrobatas e os domadores de feras, em sentido literal e figurado ("Grizzly Man", a história de Timothy Treadwell e da sua nefasta paixão pelos ursos...), assim como as mulheres barbudas e os anões, que têm um filme só para eles (o supracitado "Até os Anões Começaram Pequenos"). Não se trata, explica, de uma projecção sua, não é como se ele se sentisse uma "criatura de feira". É, pelo contrário, o mundo em volta (esse sim, "é um mundo desproporcionado"), o modo como todas estas criaturas são apercebidas. O que desemboca fatalmente na questão da loucura: de Aguirre a Treadwell (e é o próprio que os aproxima), apesar de todas as ambiguidades com que Herzog os retrata, o que importa "são os actos", o modo semi-consciente como estas personagens "viajam até aos limites da humanidade".
E para Herzog, pessoalmente, essa viagem é importante? Perguntamos, pensando em "Fitzcarraldo", filme de rodagem tão ou mais árdua do que a retratada na narrativa (um grande barco transportado através da Amazónia). Herzog responde que o mais importante é a história ("I'm a storyteller") mas que quando se levanta um desafio "não foge dele". Isto pode ser comprovado: há cerca de 30 anos, fez uma aposta com Errol Morris, e jurou que se perdesse comia o sapato. Perdeu, e convocou uma conferência de imprensa para toda a gente o ver a comer o sapato. Les Blank fez um filme com isto, chama-se "Werner Herzog Eats His Shoe".


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