Cultura: Ian McEwan: em nome do amor
Até onde nos pode levar um equívoco amoroso? Ian McEwan escreveu uma ópera sobre isso. Uma ópera para ler
"Por Ti" é o livro mais recente de Ian McEwan (n. 1948) e acaba de ser publicado pela Gradiva, a editora em Portugal de toda a obra deste escritor inglês.
O texto de "Por Ti" não foi escrito para ser lido, mas para ser cantado: é um libreto para uma ópera em dois actos do compositor inglês Michael Berkeley, encomendada pelo Teatro Musical de Gales e estreada no ano passado em Londres. McEwan veio a Lisboa lançar a tradução portuguesa do libreto.
"Por Ti" é uma ópera de câmara sobre as vaidades e os medos do "génio" artístico e sobre os jogos de poder sexuais. Mas é, sobretudo, uma comédia de equívocos um tanto negra. O protagonista é um donjuanesco compositor e maestro, Charles, simultaneamente no auge das suas capacidades artísticas e das suas fragilidades sexuais.
É uma ópera que lembra irresistivelmente Mozart (ou talvez, Lorenzo da Ponte, uma vez que estamos a falar apenas do libreto de McEwan e não da partitura de Berkeley). Simon, outra das personagens, diz a certa altura que é "um tipo simples, que prefere Vivaldi" (a Charles). E McEwan, quem prefere?: "O compositor que, desde os meus 16 anos, me dá mais prazer, um prazer que nunca se desvaneceu, é Bach. Foi provavelmente o primeiro compositor que verdadeiramente me comoveu e continuo ainda a ouvir as mesmas coisas: as Partitas para violino, as Variações Goldberg, a Fantasia Cromática... Bach ainda hoje me entusiasma exactamente como então. Nenhuma outra música que tenha sido importante para mim consegue continuar a tocar-me da mesma maneira".
Mas McEwan acrescenta logo que tem "gostos completamente eclécticos" e que na noite anterior tinha estado no Hot Club em Lisboa: "Oiço muito jazz, gosto muito de blues, gosto de rock'n'roll, música folk, country... Gosto de todos os tipos de música e, por isso, sempre que venho a Lisboa oiço fado".
Bach, Mozart (homenageado em "Por Ti"). E os compositores ingleses? Purcell, por exemplo... Responde McEwan: "Nós temos uma tradição coral fantástica na polifonia inglesa mas temos uma tradição muito irregular na música clássica... Mas Purcell, sim. Há algumas composições de Purcell que adoro." E McEwan recorda e diz, com voz bem medida, o lamento de Job sobre o qual Purcell compôs um dos hinos da música para o funeral da rainha Mary: "O homem nascido da mulher tem vida curta mas cheia de misérias..." E refere também a ópera "Dido e Eneias", que lhe dá "grande prazer" ouvir.
Terá ele algum gosto particular pela ópera?: "Gosto muito das óperas de Mozart, Rossini, Donizetti e Berg, para avançar um pouco mais." Há escritores que consideram a música inspiradora para o seu próprio trabalho. Desempenha ela algum papel no processo criativo de McEwan? "Não. A música distrair-me-ia. Gosto de pensar sobre a música e ela aparece bastante nos meus romances, mas não, não seria capaz de ouvir música e escrever ao mesmo tempo. Gosto demasiado de música para tê-la como pano de fundo".
Obsessão sexual
A música de "Para Ti" foi escrita por Michael Berkeley (n. 1948), filho do compositor Lennox Berkeley e afilhado de Benjamin Britten - "o" compositor inglês do século XX. Não foi a primeira vez que Berkeley (autor de duas óperas com libreto do escritor australiano David Malouf) e McEwan colaboraram. Em 1982 escreveram juntos um oratório, "Or Shall We Die?", estreado em Londres nesse ano. Conta McEwan: "Foi uma colaboração muito agradável e decidimos que um dia haveríamos de escrever uma ópera. Mas passaram 26 anos. Pensámos em várias novelas que poderíamos adaptar ou que eu adaptaria um romance a um libreto para ele. Não chegámos a lado nenhum. Mas descobrimos que havia um tema que atravessava todas as novelas que tínhamos examinado: a obsessão sexual. Conversámos bastante sobre isso e pensámos que era um bom assunto para uma ópera, onde os sentimentos têm de ser grandes, e estrondosos e brilhantes. Seria a força motriz apropriada para uma ópera. Eu disse então ao Michael que estava interessado numa ópera sobre música, que um compositor deveria estar no centro dela. Ele estava também de acordo com esta ideia. E foi assim que começámos. Michael tinha tido uma encomenda e pareceu-nos de repente que tínhamos andado a adiar isto demasiado tempo".
McEwan e Berkeley (cuja mulher é agente do escritor) são, portanto, velhos amigos e a escrita de "Por Ti" foi bastante partilhada. McEwan não escreveu um libreto que depois Berkeley pôs em música. O método foi mais trabalhado: "Eu estava a escrever 'Na Praia de Chesil' [o seu último romance] e sempre que terminava alguma pequena parte pegava no libreto e escrevia uma cena, que me levava talvez duas ou três semanas. Enviava-lhe essa cena e ele [Michael Berkeley] começava a compor. Fui-lhe entregando cena a cena e ele foi compondo cena a cena. E isso foi bom porque Michael tinha um programa no computador dele que me permitia ouvir o que ele estava a escrever. Havia, portanto, um 'feedback': eu podia ouvir o tipo de música que ele estava a compor enquanto íamos progredindo. É uma maneira estranha de trabalhar, de facto, olhando agora para trás...".
Mas como é que McEwan chegou ao argumento, àquelas personagens, à história que agora podemos ler e que é também, de modo tragicómico, sobre a crueldade e a violência de que somos capazes em nome do amor: teve em mente modelos clássicos, a ópera cómica, Mozart? "Don Giovanni esteve certamente na minha cabeça" - responde Ian McEwan -, "mas também fui buscar muitas cenas à minha própria obra: o mal-entendido terá vindo de 'Expiação', a obsessão sexual vem talvez de 'O Fardo do Amor', o compositor que se julga um génio virá de 'Amesterdão'... Há muitos elementos da minha própria obra que foram aqui destilados".
"Por Ti" tem um final algo macabro. Dir-se-ia que a leviandade amorosa de Don Giovanni volta a ser punida. Porquê?: "Não pretendi escrever uma peça moralista, mas penso que algo que tem a ver com a ópera levou a esse final. No momento do auge da sua auto-adorada aura, Charles está à beira de ser preso. Por causa de um equívoco, obviamente - não é ele o assassino. Mas a ideia de um homem ser levado não para o inferno mas para a prisão com todas as personagens apontando-lhe o dedo pareceu-me que continha uma qualidade dramática que me agradava".
Tudo exagerado
Não é exactamente a mesma coisa escrever um libreto para uma ópera e escrever um romance. "Esquece-se o realismo", diz McEwan: "Numa ópera é tudo exagerado. Não se pode de facto escrever uma ópera realista. As pessoas não cantam na vida real..." Ainda que possa conter alguns "versos simples", um libreto não é também um poema. Mas exige uma linguagem particularmente afinada. "Eu optei por escrever uma espécie de prosa cadenciada. E estive sempre preocupado com os tempos para respirar, com uma espécie de pulsação da prosa", diz o escritor. Que no ano passado, no Reino Unido, fez questão de exigir que as execuções da ópera "Por Ti" fossem acompanhadas de legendas.
Também não será exactamente a mesma coisa ler um libreto separado da partitura musical (como propõe a edição em livro do texto de "Por Ti") e ouvi-lo cantado num palco. Por isso perguntámos a Ian McEwan se considera o libreto de "Por Ti" uma obra literária autónoma. "Não. Uma ópera é de facto uma forma musical e um libreto é como um 'soldado de infantaria'... Mas quando estava a escrever este libreto não deixei de pensar que estava a usar algumas das técnicas da ficção, especialmente as da novela ou do conto. Ou seja, que o leitor devia ter alguma curiosidade acerca do que iria acontecer a seguir. Penso que talvez haja algumas pessoas que gostam da minha obra que irão gostar de lê-lo por si próprio, mas de facto ele existe para a música. A minha esperança é que as pessoas o leiam, gostem dele e depois queiram ver a ópera".
Não está prevista a montagem em Portugal de "Por Ti", que será produzida em Roma em Junho próximo e na Alemanha em 2010. Recordemos que se trata de uma ópera de câmara, pensada para seis cantores e quinze instrumentistas (número expandido para a produção romana): "Uma coisa importante acerca desta ópera é que a quisemos pequena. A ideia era dar-lhe condições para sobreviver, que não fosse demasiado caro produzi-la".
No início de "Por Ti", Charles, um compositor na casa dos 60, lamenta que a música que compôs na juventude já nada lhe diga. "Tanto sexual quanto artisticamente ele está profundamente preocupado, paranóico, com a ideia de estar a perder o seu poder. É uma coisa bastante comum: começamos a recear perder as nossas capacidades, repetirmo-nos, que os nosso próprios pensamentos comecem a aborrecer-nos. É um problema das obras tardias, parece-me. Pus em Charles um pouco das minhas próprias ansiedades", ironiza McEwan. Que não tem, contudo, aquele problema em relação aos seus primeiros livros: "Não penso muito nisso. Quando acabo um romance, ele morre para mim. E não volto a olhar para as minhas histórias antigas. O jovem que as escreveu parece-me estar já muito distante de mim. Claro que me agrada que outras pessoas gostem delas, mas eu próprio concentro-me apenas naquilo que estou a fazer".
O que McEwan está a fazer é o seu próximo romance: "O contexto é o das alterações climáticas. É acerca de um homem que pensa que pode salvar o mundo. Mas é uma pessoa bastante nociva. Interessantemente nociva para mim, em todo o caso. É um mentiroso, um vigarista, um trapaceiro. Estou a cerca de dois terços, falta-me escrever uma última grande parte, cerca de 30 mil palavras. Mas espero acabá-lo este ano".


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