Debate: Faz sentido uma arte só para os "militares"?

O termo usado pelo crítico Francisco Bosco diferencia os conhecedores de arte do grande público, pouco familiarizado, os "civis". Vik Muniz foi criticado recentemente por fazer arte que toca também esses "civis". Mas toda boa arte não é feita para ser entendida por todos? Faz sentido uma arte só para especialistas?


Por Anna Carolina Raposo


"Não é necessário ter lido Russell, Gombrich ou Merleau-Ponty para olhar meu trabalho e dizer: 'olha, estou entendendo'. Estou trabalhando com a base da pirâmide, com coisas muito mais básicas". A afirmação é de um dos artistas mais badalados da atualidade no Brasil, Vik Muniz. A declaração foi feita durante a palestra de abertura da exposição Vik, em cartaz no Masp até 12 de julho. "Com respeito pela bagagem visual do espectador, você não deixa de ser exigente, mas age de forma mais aberta", disse o pintor na ocasião. Suas declarações vão na contramão da maior parte da produção contemporânea de artes visuais no mundo.

Uma grande parte da arte produzida hoje é taxada de inacessível. Ao exigir um arcabouço de referências culturais para apreciá-la, a arte contemporânea acaba por excluir aqueles que não são conhecedores do meio, os "iniciados". Sem atingir o grande público, essa produção não chega aos espaços de exposição mais conhecidos e não é divulgada para além dos veículos especializados, restringindo seu alcance aos "militares".

O jogo de palavras é da autoria do crítico Francisco Bosco. Em um texto em que justificava o sucesso da temporada dessa mesma exposição de Vik Muniz no Rio de Janeiro, Bosco utilizou-se das expressões "civil" e "militar" para se referir respectivamente ao grande público, pouco familiarizado e que visita menos exposições, e o público familiarizado com o meio artístico. Para ele, uma das razões pelas quais o público "civil" se identifica e se interessa pela obra de Vik é o fato de ela se estabelecer dentro do chamado "circuito de significação imediata". Para Bosco, o apelo dessa arte vem de um "princípio formal recorrente" e uma relação de semelhança formal direta entre o material que Vik utiliza e a obra em si.

"Se produziu uma fissura até hoje aberta entre o que se configurou como um público específico, conhecedor dos códigos próprios da arte moderna, de sua história formal, capaz de fazer juízos estéticos a posteriori, e um público leigo, formado por sujeitos perplexos ou desdenhosos diante de obras cuja artisticidade não é capaz de perceber; público que é a vasta maioria das pessoas. Pois as obras de Vik acolhem calorosamente os civis. (...) a pequena descoberta da relação entre o material e o tema ilumina a obra e garante uma dimensão prazerosa à experiência".

Entender a obra sem precisar de conhecimentos prévios sobre a arte é o remédio para o problema apontado por outro crítico, Affonso Romano de Sant'Anna: "Esta é uma exposição que realiza o reencontro do público com a arte. Isto é raríssimo hoje em dia. O que tem caracterizado certas mostras é aquilo que Jean Clair - crítico de arte de maior prestígio na França - chamava de "multidões sonâmbulas". Ir a museu virou uma variante do turismo. Pessoas vagando entre obras que não entendem sem conseguir compatibilizar as bulas oferecidas com o produto exposto. (...) Vik Muniz consegue a empatia e a admiração do público e a atenção de críticos daquilo que [o sociólogo] Howard Becker chamava de arte oficialista".

Assim como despertou euforia por um lado, o sucesso do trabalho de Muniz provocou reações ásperas de parte da crítica especializada. Como reconhece o crítico de Bravo! Bruno Moreschi, existe uma tendência em maldizer o que cai no gosto do grande público, como se a arte para "civis" irritasse aos "militares". Mas esse nem sempre, segundo ele, é o que gera crítica negativa ao trabalho de Vik.

"Se nos depararmos com um único trabalho seu numa coletiva com vários outros artistas, por exemplo, ele torna-se um artista genial. Se estivermos em uma individual, como é o caso da retrospectiva do Masp, ele torna-se um criador de técnicas surpreendentes, mas um tanto quanto repetitivo. Quando suas obras são apresentadas uma em seguida da outra, surge uma ressalva em sua carreira: a repetição. Há pelo menos 15 anos, Vik usa de uma mesma técnica (o uso de materiais não apropriados para o fazer artístico) para produzir obras que tratam sobre a mesma questão (a reprodução fidedigna de símbolos da cultura). Ver uma individual sua é constatar o quanto ele está escravo dessa técnica", afirma Moreschi.

Ainda segundo o crítico de BRAVO!, sob o pretexto de ser acessível, a arte não precisa ser fácil. "A arte de Vik pode até ser para 'civis' - mas isso não o isenta de um olhar atento dos 'militares'. Aliás, essa divisão 'civis' e 'militares' é mais excludente do que a idéia de que existe arte difícil de ser compreendida. Não concordo em dividir a arte através desse olhar bipolar - é reduzir demais as coisas e chamar o público de burro".

Desde Duchamp se alteraram tanto as características que atribuem qualidade, originalidade, pertinência e profundidade a uma obra, que a crítica tem de se valer de parâmetros inexatos, subjetivos, para avaliá-la. E fenômenos de público como o trabalho de Vik suscitam questões: Atrair o olhar do público não especializado é, por si só, característica que atribui tais qualidades à obra? Para que a arte seja assimilada pelo grande público, é preciso torná-la fácil? Ou o contrário, uma obra com profundidade fica, inevitavelmente, restrita a quem partilha dos referenciais necessários para compreendê-la?

Há quem diga que a culpa pela arte contemporânea não falar ao grande público não deve recair sobre os artistas, e sim sobre um contexto social que, sem incentivos, não permite o acesso à educação formal e aos bens culturais. Há, por outro lado, quem diga que o artista deve considerar a realidade desse contexto e incorporá-la ao seu trabalho, falando sempre com o grande público, tal como ele é. E você, o que acha?




http://bravonline.abril.com.br/conteudo/assunto/faz-sentido-arte-so-militares-470448.shtml

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