Debate: O que é que fizeste com a II Guerra Tarantino?
E se a cinefilia tivesse sido a arma, na II Guerra, que deu cabo dos nazis? Quentin Tarantino fantasiou e trouxe a guerra, com "Inglourious Basterds", ao seu Olimpo de cinefilia, Cannes.
É um filme de guerra?
É um western, em que os nazis são os índios embora sejam os americanos, liderados por Aldo, o Apache, os especialistas nos escalpes?
É um "film d'auteur", assim mesmo, em francês, que é uma das línguas faladas, juntamente com o alemão e o inglês? (É, então, um "film d'auteur" legendado?)
O que é que fizeste com a guerra, Quentin Tarantino? Ele fez tudo. "Inglourious Basterds" é uma fantasia.
E se... um grupo de bárbaros americanos, comandados por Aldo, o Apache (Brad Pitt, capitaneando entre outros "basterds" Eli Roth, que faz os escalpes), com a ajuda de ingleses (entre os quais Michael Fassbender, ex-crítico de cinema alistado agora em outra guerra) e de alemães convertidos (Til Schweigger), juntassem esforços a uma judia francesa (Mélanie Laurent), proprietária de uma sala de cinema em Paris, e a uma estrela do cinema alemão que espia para a Resistência (Diane Kruger), e se, dizíamos, dessem cabo dos nazis?
E se conseguissem meter Hitler, Goebbels e Goring - e o finíssimo sádico que é o "caçador de judeus" Coronel Hans Landa (Christoph Waltz, finíssimo actor) - numa sala de cinema, por causa da estreia de gala de um filme de propaganda nazi, "O Orgulho da Nação", protagonizado por uma jovem estrela do nacional-socialismo (Daniel Bruhl), e trancassem as portas e pegassem fogo a 350 cópias de nitrato?
Morriam os principais e a II Guerra Mundial teria de ser contada de maneira diferente. Na terra onde se respeitam os "auteurs", até os "auteurs" alemães - a França, então -, um conjunto internacional de resistentes bárbaros - e cinéfilos; "ver um judeu dar cabo de um nazi é como ir ao cinema" - conta a História: foi o cinema que deitou abaixo o III Reich.
É este o ideal de "Inglourious Basterds", que Tarantino trouxe ao seu Olimpo cinematográfico, o festival dos "auteurs", Cannes, o seu ideal, onde a cinefilia é arma. "There's no place like Cannes para os realizadores à face da terra", disse ele, que não se assume como realizador americano, "mas como realizador de filmes para todo o planeta."
(Para um actor e realizador de origem judaica, como é Eli Roth, especialista da vaga de terror sanguinolento a que chamam "horror porn", a coisa é mais prática: "Inglourious Basterds" é o filme da definitiva vingança judaica, e pela forma como os escalpes se sucedem coloca no filme a etiqueta de "kosher porn").
Era uma vez, então, não no Oeste mas na França ocupada...
"Inglourious Basterds" é o tal projecto que Tarantino andou a escrever durante oito anos. Seria, supostamente, um "remake" do filme de Enzo Castellari, de 1978, "Inglourious Bastards", que para Quentin faz figura de emblema de um sub-género dentro do género filme de guerra: o "bunch of guys in a mission movie", o "filme de um grupo em missão". Na verdade, o filme de Tarantino não é um "remake". É outra a sua natureza. Não é por acaso que o título do filme de Castellari se refere aos "bastards" e o de Tarantino aos "basterds". Não há gralha. É o preciosismo (mais disto à frente...) que faz a diferença: Tarantino recria não um filme, mas uma ideia de cinema e de género. Onde cabem, funciona assim com ele, todos os filmes em potência.
Cada segmento de "Inglourious Basterds" - ou deveríamos falar em "capítulos", como num romance? - é escrito, desenvolvido, filmado, montado como um filme autónomo, ou com potencial, de personagens, de narrativa, para se desenvolver como um filme autónomo. Cada um expondo e revelando ao que vem como quem abre uma caixa de surpresas. E assim, passamos de capítulo em capítulo, de golpe e teatro em golpe de teatro, numa progressão a que só não sucumbimos exaustos porque Quentin é mais caloroso do que exibicionista e filma com papel e caneta, como quem escreve o seu romance. Contagiante e inteligente espectáculo este. Que em vez de ser espectáculo da acção, é espectáculo da palavra. Os diálogos e as legendas são a matéria do drama, a matéria com que se faz a II Guerra em "Inglourious Basterds". Que é um filme falado tanto em francês como em alemão como em inglês. Onde quem sabe as línguas todas está em condições de dominar (mas tanta legendagem complicará a vida aos americanos, isso é mais que certo).
E agora, uma "frequently asked question" de 2009: porque é que "bastards" deu em "basterds", qual é a coisa do "e"? "É um floreado artístico que não posso explicar. Jean-Michel Basquiat tirou um L da palavra Hotel e colocou-o num quadro seu. Se ele fosse a explicar porque é que fez isso..." Não é preciso dizer mais...


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