Debate: O músico precisa ser amigo do fã?

Carlos Eduardo Miranda, um dos principais produtores do país, defende que para conseguir sobreviver na era digital os músicos devem estabelecer relações pessoais com seu público. Você concorda?

José Flávio Júnior

Participe de um chat na quarta-feira, 3/6, às 19h, com o produtor

O gaúcho Carlos Eduardo Miranda, 47 anos, é uma figura fundamental para a música pop brasileira das últimas duas décadas. Embora sua imagem só tenha se popularizado verdadeiramente quando assumiu o posto de jurado do programa Ídolos, no SBT, em 2006, Miranda já era considerado uma espécie de guru para a geração surgida na rebarba da explosão do rock oitentista. Jornalista de formação, atuou como crítico de música, mas se encontrou mesmo quando passou para o outro lado e começou a trabalhar como produtor, descobrindo e lapidando novos artistas.

Logo numa das primeiras experiências dentro do estúdio, no começo dos anos 90, Miranda revelou a banda de rock que se tornaria o maior êxito daquela década, Raimundos. Na cola, lançou os discos do Mundo Livre S/A, grupo que fundou o movimento manguebit ao lado de Chico Science & Nação Zumbi. Perto da virada do milênio, como diretor artístico da gravadora Trama, apostou na consolidação de uma cena eletrônica no país. O movimento seguinte foi a criação do portal TramaVirtual, que se converteu no principal espaço brasileiro para artistas iniciantes divulgarem suas canções pela internet. Nesse ambiente, nasceu o Cansei de Ser Sexy, grupo paulistano que hoje goza de prestígio no meio alternativo internacional e pode ser classificado como a mais recente bola dentro de Miranda.

Em 2009, ele já adicionou outro grande trabalho ao currículo: o segundo álbum do brasiliense Móveis Coloniais de Acaju, revelação dos festivais independentes do Brasil. Também produziu a estreia solo da vocalista da Orquestra Imperial Nina Becker, que tem previsão de chegar às lojas no segundo semestre.

Ídolos migrou para a Record no ano passado, mas Miranda seguiu na emissora de Silvio Santos e hoje comanda o programa Astros, cuja segunda temporada teve início em maio. O formato é parecido com o de Ídolos, ou seja, é o bom e velho show de calouros. Levando-se em conta a repercussão da participação da cantora amadora Susan Boyle num programa similar britânico, dá para dizer que a fórmula ainda cativa o telespectador. A quarentona escocesa, desengonçada e gorducha, se apresentou no Britain's Got Talent em abril. Antes de cantar, amargou a hostilidade do público e do júri. Mas, ao abrir a boca, surpreendeu, revelando-se uma excelente intérprete.

Para conversar sobre esse fenômeno que se transformou num dos vídeos mais vistos da história do YouTube, sobre o futuro do mercado musical, sobre o fim do download e outros assuntos relacionados, Miranda recebeu a reportagem de BRAVO! em seu apartamento, no bairro paulistano do Sumaré.

BRAVO!: Qual é sua opinião a respeito do fenômeno Susan Boyle?

Carlos Eduardo Miranda: Isso me cheira meio mal. Em 1994, aconteceu algo idêntico com ela num programa de TV lá na Inglaterra. Está no YouTube. Não duvido que os produtores do Britain's Got Talent tenham lembrado disso, ido atrás dela e depois fingido que não sabiam do que se tratava para dar uma aparência inesperada à coisa. Na verdade, não consigo entender por que as pessoas ficaram tão impressionadas com a mulher. Quer dizer que quem é feio tem de cantar mal? Você pega a música brasileira e tem um monte de cantor feio. O Fagner não é feio que nem um raio?

Você não se emocionou quando assistiu ao vídeo?

Achei legal. O clima é muito bem feito. Quando eu fazia o Ídolos, pintou uma guria do interior do Amazonas que usava a roupa mais horrível do mundo, um gorrinho da Kelly Key e uma saia com uma fenda na frente que deixava até a calcinha de fora. Era tudo errado. Mas, quando começou a cantar, ela mandou muito bem. Eu falei para os outros jurados: "Tá vendo?".

As mudanças que estamos vivendo no mercado fonográfico são mais benéficas ou maléficas?

São benéficas. Não tem nada de ruim acontecendo. Só de ter desmoronado o que já estava construído há anos é um ganho. As coisas acontecem em ciclos. Começa com um cara tocando uma música legal e alguém querendo ajudar. Esse alguém monta uma empresa para lançar aquele artista. Aí o negócio vai crescendo, começa a abranger mais gente. Vai ficando tão grande que chega uma hora que quem está no poder não é mais aquele cara que gosta de música — ele já partiu para outro empreendimento. No seu lugar entra alguém que veio do marketing, que não tem nada a ver com a arte. Foi o que a gente viveu na indústria da música. Poucas pessoas que amavam a música estavam envolvidas com o negócio. No mundo todo. Eu não vejo isso com ódio. Simplesmente é assim. Também nunca acreditei nessa história de que a mídia impõe a música fuleira. Isso é tudo lenda. A música fuleira é natural. Por isso, agrada do pobre ao rico. Geralmente ela é feita para animar a pessoa a fazer filhinho, para esquentar a relação. A maioria é ligada a alguma dancinha. E é dança de acasalamento, sexo disfarçado, algo natural do ser humano.

Muita gente classifica a banda paraense Calypso de fuleira. Independentemente disso, você foi o responsável por juntá-la com o Paralamas do Sucesso num especial da MTV...

Aquilo foi tão fácil que eu fiquei só olhando, não precisei fazer nada. Parecia que os músicos eram da mesma banda. É óbvio, pois as influências dos dois grupos vêm do mesmo lugar. O Chimbinha, da Calypso, é um grande guitarrista. E a Joelma, mulher dele, um dia veio me dizer que o estilo dela de cantar foi totalmente inspirado no rock. Ela imita a Cyndi Lauper, o Axl Rose. Lógico! Isso é aculturação mesmo, um processo natural. As pessoas é que não entendem, e aí vem o preconceito. Quando o pobre daqui teve acesso à tecnologia, o que ele inventou? O funk carioca, o tecnobrega, coisas simples, mas loucas, diferentes.

Analisando o cenário atual, como você acha que um artista iniciante deve planejar sua carreira?

Hoje existem mais possibilidades e condições de se iniciar uma carreira com autonomia. Só que isso traz junto mais responsabilidades. O artista tem de tomar conta do próprio nariz. Começa que a concorrência é enorme. O barateamento das tecnologias possibilitou que muitas pessoas passassem a produzir música. As pessoas têm estúdio em casa. Então, vá lá e faça. As carreiras têm de ser autogeridas. O artista tem de saber botar sua música na internet e saber brigar pelo palco. A equação é internet mais rua. Rua, que eu digo, é o cara assistir a shows, conhecer os lugares nos quais gostaria de tocar, conhecer os outros músicos da sua cena. O artista tem de ser público também. Não é mais o artista lá e o fã aqui. Você tem de pensar que tem uma loja. Por que as pessoas vão comprar na sua e não na outra? O artista está num mercado disputando a atenção das pessoas, uma atenção que é completamente dispersa. E os meios tradicionais ainda são importantes. O cara tem de tentar chegar ao jornal, chegar à rádio. Se for muito carismático, pode dar uma sorte e emplacar. Mas depender só de sorte e carisma, no mundo de hoje, não é viável. O cara tem de construir o caminho para decolar, se preocupar em ter um baita show. Daí é que virá o seu dividendo. Como o público já pega a música de graça na internet, ele só vai te dar dinheiro se quiser. É o conceito de amigo, que o MySpace usa muito bem. O artista tem de ser amigo do fã. Daí o fã vai pensar: "Esse aqui eu quero ver bem, esse faz um trabalho caprichado, vai levar o meu dinheiro".

Você criou o site TramaVirtual, que oferece álbuns em esquema "download remunerado" (uma empresa repassa uma quantia em dinheiro para o artista quando o público baixa suas músicas de graça). Isso é eficaz, mesmo agora que já se fala no fim do download?

Vivemos num mundo de mudanças contínuas. Mas não é porque o mundo vai mudar que não se deve fazer o de hoje. O download é presente. O MP3 é hoje. Na verdade, de hoje para ontem. Só que eu vou fazer o que eu puder por ele. Sei que amanhã o que vai dominar é o streaming [sistema pelo qual a música fica permanentemente no ar, sem que o internauta precise baixá-la]. Mas, se eu negar o hoje, estarei sempre não fazendo nada. Você tem de se preparar para o futuro, mas agir no presente.

Como você avalia essa possibilidade de, no futuro, as pessoas não baixarem mais arquivos?

É algo inevitável. A internet vai ser uma coisa tão banal quanto a eletricidade. Hoje as pessoas ainda ficam impressionadas com a internet, mas você vê alguém ter a mesma percepção sobre a eletricidade? Tudo será conectado à internet. Isso é o óbvio. E serão achadas maneiras de transmissão de dados muito rápidas.

E o formato álbum, está mesmo ameaçado?

Hoje a gente vive a decadência dele. Mas, se no futuro o artista fincar o pé e lançar um trabalho no formato álbum, as pessoas ficarão curiosas para ouvir. Vai ter de tudo. No entanto, tenho certeza de que o streaming é o futuro e que as pessoas vão pagar por isso. Vamos voltar a pagar pela música, como pagamos pela eletricidade, pela água. Mas será um valor justo. A indústria mainstream sempre vai existir. Não vai ser tudo pulverizado. Nunca. Sempre existirá o sucesso de massa. O grande artista, o grande show, isso nunca vai mudar. Tudo ficará maior ainda, com alta tecnologia. E as pessoas irão pelo evento.

Já existem dados apontando que o lucro da pirataria no Brasil tem diminuído, possivelmente por haver mais pessoas com acesso à internet, que não precisam desse intermediário. Como fica o pirata nessa?

O pirata também é uma coisa transitória. Ele veio como uma nuvem de gafanhotos, bagunçando tudo, mexendo com a indústria. E uma hora lá se vai a nuvem. Mas o que o pirata fez com a indústria cinematográfica é interessante. O cineasta faz um filme, esse filme vai para o cinema, depois para locação em formato DVD, depois para pay-per-view na TV, depois o DVD começa a ser vendido no varejo... O pirata entende o processo assim: "Tá no cinema? Então tá aqui o DVD para vender!". A indústria tem de rever sua maneira de lançar filmes. Será que não é mais jogo soltar o DVD junto com o lançamento no cinema? Se tem gente que vê no cinema e depois revê no DVD, será que não tem gente que veria no DVD e depois ficaria com vontade de ver o filme na telona? Os que viram a cópia pirata do Tropa de Elite depois não lotaram os cinemas?

O cenário musical brasileiro atual lhe agrada?

Considero o que temos hoje melhor do que o que tivemos em qualquer época. Nunca foi tão rico. Falta um pouco de acabamento para as coisas, mas isso vem com o tempo. É um cenário que está se redescobrindo, que está reaprendendo a fazer.

E quais artistas tiram você de casa?

O coletivo me atrai mais do que o individual. Mas eu vou a festivais para ver Mundo Livre S/A, Mallu Magalhães, Marcelo Camelo, Do Amor... E agora que tem essa lei em São Paulo que proíbe o cigarro em lugares fechados, vou passar a ver mais shows [risos].

http://bravonline.abril.com.br/conteudo/assunto/musico-precisa-ser-amigo-fa-474322.shtml

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