Música: St Vincent fez um disco de gente crescida

Por: João Bonifácio
"Actor" é um disco monumental de orquestrações alucinadas, que se ouve como quem cai num pesadelo.

Olhem bem para a cara dela na capa de "Actor": os olhos grandes, esbugalhados, verdes, as sobrancelhas tratadas, o nariz fino, os cabelos entre o ondulado e o encaracolado, o rosto alvo, o pescoço estreito, o queixo definido, o quase sorriso a despontar.
Aquele rosto faz-nos imaginar pequenas neuroses a encaracolarem as pontas dos cabelos, crises amorosas, turbilhões internos. Imaginamos cenários tenebrosos: que ela podia ser uma irmã mais nova da insuportável Regina Spektor, uma PJ Harvey mais mansinha.
Quem ouviu "Marry Me", o primeiro disco, lançado há dois anos, encontrou um álbum centrado nas inevitáveis questões hormonais. Havia boas melodias não convencionais, algo que a distanciava do universo da Spektor. As letras, pese a temática, tinham "wit". E, além da guitarra, o disco estava cheio de Moogs, piano e outros instrumentos que ela própria tocou. Tudo pontos a favor.
Ainda assim parecia uma mulherzinha.
Mas depois ela diz: "Não é que neste disco eu quisesse tirar a parte caprichosa da minha música. Mas queria juntar um lado mais perturbador e repugnante."

Isto é St Vincent a referir-se ao processo que a levou ao segundo disco, o mencionado "Actor", e, ao mesmo tempo, é St Vincent a admitir que havia um lado "queridinho" na sua música com o qual não quer ficar exclusivamente conotada.
Ela diz: "Acho que era muito nova quando escrevi o primeiro disco. Era um daqueles discos sobre 'como a vida é', ainda por cima de um ponto de vista romântico. Era um disco de rapariguinha." Não perde tempo e atira, com resolução: "Se há coisa que queria era fazer este disco do ponto de vista de um adulto."

Sabemos como pode ser assustador misturar as palavras "pop" e "adulto" numa só frase, mas St Vincent está longe de querer brincar no mesmo campeonato dos U2. Por "adulto" ela quer apenas dizer que "queria fazer um disco de gente crescida, com as emoções e as perturbações e neuroses das gentes crescidas".
O disco adulto de St Vincent é "Actor": 11 canções disfuncionais, que parecem caixinhas de música estragadas, trespassadas por uma imensa paleta de instrumentos: cordas ora sumptuosas, ora assustadoras, sopros, metais, cordofones e a sua amada guitarra eléctrica, o seu primeiro instrumento. A descrição que ela oferece para o disco é exacta: cada canção soa à banda-sonora de um processo de desintegração mental (e ainda assim tudo é melodicamente irrepreensível).

Rocker a sério

É o disco que faz dela um caso sério, o disco que acaba com a imagem de menininha. Imagem errada, diga-se, porque há nela uma rocker a sério. De seu verdadeiro nome Annie Clark, esta rapariga de quem Andrew Bird e Bon Iver são fãs nasceu no Texas, "nos subúrbios de Dallas", numa "família católica com mais sete irmãos" e "aos 13 anos" já tocava guitarra. Passou uma parte da adolescência enfiada no quarto "a ouvir o que passasse na rádio" e a aprender a tocar.
A outra parte da adolescência, contou ao "New York Times", passou-a como "tour manager" de um tio chamado Tuck Andress. Isto não é a típica vida de "menininha".
Fez parte da 100 Guitar Orchestra de Glenn Branca e aos 23 anos juntou-se aos Polyphonic Spree. Mais tarde, fez parte da banda de Sufjan Stevens. Depois abriu concertos para os Arcade Fire e para os National, já como St Vincent. Roubou o nome ao hospital onde Dylan Thomas morreu. Ela gosta de pormenores destes, "com um certo negrume", e diz que a sua "beleza frágil" e a sua "intensidade" "não são mutuamente exclusivas".

Ouvindo "Actor", conclui-se que não, não são. "Actor" pode parecer o disco de alguém que não está a bater bem da cabeça, mas acima de tudo é o disco de quem não teve nada na cabeça durante demasiado tempo.
"Andei em digressão um ano e meio, e quando cheguei ao fim parecia que não tinha cérebro. É um meio de operar tão específico que quando cheguei ao fim senti que tinha vivido muito, mas não conseguia sequer acercar-me do que tinha vivido. Parecia que não tinha retido nada."
(Clark diz ser uma mulher "obsessiva": "Com os discos, por exemplo. Tendo a ficar obsessiva com um e ouço-os exclusivamente durante meses. Neste momento são os Dirty Projectors".)

Sozinha em casa, em Brooklyn, depois da digressão, só havia uma obsessão: um "bloqueio de escrita, que é uma coisa pavorosa". Ela não conseguia escrever, por mais que tentasse. "Por isso comecei a ver muitos filmes. E acabei por inventar as minhas bandas-sonoras para os meus filmes favoritos". Daí o nome "Actor".
Clark escreveu "a maior parte do disco no PC", no seu "apartamento, para não fazer barulho para os vizinhos". Diz gravar em computadores "desde os 13 anos". Não usou instrumentos reais. Samplou-os, depois introduziu "as notas pelo MIDI" e modificou "o som até ficar contente". Daí também alguma da estranheza do disco. Não havia regras, apenas manias: "Gosto imenso de dissonâncias, usei-as imenso porque criam um ambiente ligeiramente assustador".
"As canções não correspondem obrigatoriamente a nenhum filme", esclarece Clark, que também é uma mulher de livros e gosta de ler Susan Sontag. "Apenas os usei como inspiração", acrescenta. A título de curiosidade, fique-se a saber que a colecção de cinema visto ia "de 'Badlands' [de Terrence Malick] ao 'Feiticeiro de Oz', passando por Stardust Memories [de Woody Allen]". (Clark é fã de Woody Allen e acha que "toda a gente devia ver 'Stardust Memories'".)

Quando lhe perguntámos porque razão resolveu ver cinema para vencer o seu bloqueio de escrita, Clark respondeu: "Basicamente, sou uma pessoa muito cerebral". Talvez. Mas só se partirmos do princípio que o cérebro está cheio de carne.

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