Arte: Os Dois Lados do Rio Prata

Enquanto muitos brasileiros mantêm a herança do formalismo, os novos artistas argentinos empenham-se mais em criar paisagens, moldar figuras e registrar cenas. A diferença fica evidente na exposição Argentina Hoy, em cartaz em São Paulo


Por Gisele Kato

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Em tempos de fronteiras fluidas e de diluição dos estilos nacionais, é arriscado comparar a produção artística de dois países. Feito com cuidado, no entanto, esse exercício pode levar a conclusões surpreendentes. Com 63 obras de 33 artistas contemporâneos argentinos, a coletiva Argentina Hoy, que toma o Centro Cultural Banco do Brasil de São Paulo a partir do dia 6, oferece justamente essa possibilidade. Diante do conjunto, tem-se não só a chance de conhecer trabalhos de prestígio pouco divulgados por aqui como de traçar paralelos entre a arte nacional e a do país ao lado. E perceber como duas nações com trajetórias similares no século 20 chegaram tão diferentes ao século XXI.

Pelas escolhas do curador brasileiro Franklin Espath Pedroso, que nos últimos anos esteve envolvido com a organização da ArteBA, a feira de arte contemporânea de Buenos Aires, fica evidente a predominância da figuração entre os jovens talentos argentinos. Apesar da tradição geométrica e da força do concretismo na Argentina dos anos 50, grande parte da nova geração empenha-se em criar paisagens, moldar figuras, registrar cenas. "É curioso observar como somos mais presos às questões do formalismo e da geometria do que os argentinos", analisa o curador Fábio Magalhães, que esteve à frente da segunda e da terceira edições da Bienal do Mercosul. Para Pedroso, pode-se ainda dividir os nomes destacados por ele dentro dessa linha figurativa em dois grandes grupos: o dos que tratam de temas ligados à cidade, caso de Ernesto Ballesteros e Matias Duville, e o dos que se entregam a um universo onírico, como Leonel Luna, a dupla RES y Constanza Piaggio e Max Gómez Canle.

"Há também um embasamento teórico entre os argentinos. Eles dominam a história da arte, a história de seu país e usam isso nas obras", diz Pedroso, que responde pela curadoria da mostra ao lado da argentina Adriana Rosenberg, diretora da Fundação Proa, em Buenos Aires. Leonel Luna, por exemplo, apresenta em São Paulo a fotografia Bullfight, de 2001, em que aparece deitado nu sobre um cavalo, em uma clara referência à gravura A Corrida de Mazeppa, criada pelo francês Auguste Guinnard em 1856. Já a dupla RES y Constanza exibe na coletiva a foto La Dama, de 2005, que remete à célebre composição do renascentista italiano Leonardo da Vinci, La Dama con L'Ermellino (1488-1490).

A exposição inclui ainda artistas bastante festejados no mercado, caso de Jorge Macchi, que participou da Bienal de Veneza em 2005. Ele se soma à seleção com o vídeo Fim de Filme, lançado em 2007. Visto no Brasil durante a 6ª Bienal do Mercosul, o trabalho sincroniza a subida dos créditos finais de um filme na tela com uma trilha produzida em parceria com o compositor Edgardo Rudnitzky. Já Leandro Erlich, que no início do ano instalou um site specific (trabalho desenvolvido especialmente para um espaço expositivo) no badalado P. S. 1, centro de arte contemporânea do Museu de Arte Moderna de Nova York, o MoMA, está em Argentina Hoy com uma obra inédita, feita com espelhos.

Com uma projeção internacional que em nada perde para os brasileiros, os artistas argentinos lidam com o atual interesse do mercado estrangeiro pela América Latina de forma mais natural. "Culturalmente, eles sempre foram mais universalistas. Nós é que somos muito voltados para questões internas. O argentino é um cidadão do mundo. Nas artes plásticas daqui, essa condição veio recentemente", explica Magalhães. E no processo para os brasileiros firmarem um lugar cada vez maior no circuito está certamente a necessidade de olhar com atenção para a produção vizinha.

ONDE E QUANDO
Argentina Hoy. Centro Cultural Banco do Brasil de São Paulo (rua Álvares Penteado, 112, Centro, São Paulo, SP, tel. 0++/11/3113-3651). De 6/7 a 30/8. De 3ª a dom., das 10h às 20h. Grátis.

http://bravonline.abril.com.br/conteudo/artesplasticas/dois-lados-rio-prata-480896.shtml

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