Arte: Para Ver do Avião

A obra Le Jardin des Capteurs (O Jardim dos Captadores), executada entre 2000 e 2002, em Montreal. Plantas no lugar de aterro sanitário

Artistas como o tunisiano Jean Paul Ganem revivem, com suas obras de natureza efêmera e grandes proporções, a land art dos anos 70

Sheyla Miranda

Em 1970, o artista americano Robert Smithson (1938-1973) apresentou a sua Spiral Jetty (algo como Píer Espiral), um gigantesco caracol de pedra e terra construído sobre o Grande Lago Salgado, no estado de Utah. No ano seguinte, seu colega Walter de Maria começou a planejar The Lightning Field (O Campo de Raios), que só seria finalizada seis anos depois. A obra consistiu na instalação de 400 para-raios de aço inoxidável em um terreno no Novo México. Esses dois trabalhos, feitos ao ar livre e com dimensões que só podiam ser admiradas de dentro de um avião mesmo, integraram a corrente estética chamada land art, ou arte da terra. Os adeptos da nova escola defendiam uma arte que contestasse o circuito das galerias e dos museus e para isso ofereciam ao público criações impossíveis de ser comercializadas e de natureza efêmera - que hoje, em sua maioria, só são conhecidas por registros fotográficos.

Atualmente, as reivindicações políticas dos artistas da land art já não fazem tanto sentido. A questão ecológica, no entanto, levou ao surgimento, recentemente, de uma nova leva de artistas tributária desse estilo dos anos 70. O tunisiano Jean Paul Ganem, que vive em Paris desde a adolescência, faz parte desse contingente. Entre 2000 e 2002, ele inaugurou em Montreal, em um endereço que por mais de três décadas funcionou como aterro sanitário, Le Jardin des Capteurs (O Jardim dos Captadores), talvez o mais famoso de seus cerca de 50 trabalhos. Seu jardim cheio de formas gráficas chegou a reaproveitar os gases advindos do lixo para a produção de energia.

Agora, o artista promete causar impacto parecido em São Paulo. O Projeto Aldeinha, como foi batizado, ainda depende de verba para ser finalizado em novembro. No local -uma área de 17 mil metros quadrados no bairro paulistano da Lapa- havia até recentemente uma favela. Nos lugares onde se situavam as casas das 500 famílias, Ganem irá plantar flores de cores distintas. Por meio de cursos em ONGs, os antigos moradores ainda ajudarão a cuidar do jardim. O projeto, que inclui também a produção de exposições e peças de teatro no espaço, é pensado para durar três anos. "Quanto mais efêmeras, mais intensas", diz Ganem. Depois desse período, o terreno, cuja terraplenagem deve ser concluída neste mês, será destinado a uma obra pública de transporte, uma alça de acesso à Marginal Tietê.

http://bravonline.abril.com.br/conteudo/artesplasticas/ver-aviao-495584.shtml

Comentarios

Entradas populares