Arte: Mostra aberta na galeria Leme exibe México contraditório

MARIO GIOIA
da Folha de S.Paulo

Um relógio que nunca muda de horário. Quatro finas lâmpadas de néon que parecem sustentar uma maciça parede de concreto. Paisagens grandiloquentes pintadas em meio à convulsionada Cidade do México. Algo sempre está em descontrole nas obras da coletiva "One Foot Apart", que é aberta hoje na galeria Leme.

A mostra exibe trabalhos de 11 artistas mexicanos, uma peruana e um norte-americano, sendo que a maioria tem sua atividade na Cidade do México.

"Escolhi muitos nomes novos, com alguns referenciais na cena contemporânea do país, como Daniel Guzmán", diz a curadora, a espanhola Ruth Estévez, 32, à frente também do Museu de Arte Carrillo Gil, um dos mais importantes da capital mexicana. Segundo Estévez, a exposição lida com a escala de diversas maneiras, explorando, às vezes com um tom político, o cotidiano conturbado comum às cidades latino-americanas.

Os desenhos apresentados por José Antonio Vega Macotela, por exemplo, foram feitos clandestinamente por detentos de Santa Martha Acatitla.

"Nessa prisão, é proibida a realização de desenhos. Lápis e folhas de papel são vetados. É como se o artista desse corpo ao mercado negro e à economia subterrânea tão presente no dia a dia dos mexicanos", explica a curadora.

Outra instalação de crítica econômico-social é a feita por Jorge Méndez Blake. Nela, sete exemplares de "Bartleby, O Escrivão", de Herman Melville, são sufocados por 640 blocos cinzentos de construção, comuns nas moradias das grandes cidades.

"É uma obra com muitas leituras. É uma instalação que serve de metáfora de como somos oprimidos pelo mercado, pelas convenções sociais, pelas dificuldades das metrópoles", diz Estévez. A coletiva também exibe peças que se apropriam da arquitetura da galeria paulistana, como a de Alejandro Almanza.

O artista fez uma escultura constituída por quatro lâmpadas de néon, fixadas ao chão por massas de cimento. As luzes emitidas pelo dispositivo parecem a de um estádio de futebol. "Apesar da estridência da luz, a fineza das lâmpadas parece apoiar a parede de grandes dimensões. É um trabalho de contrastes", afirma a curadora.

Entre outros destaques, a mostra exibe um relógio de Miguel Monroy que não muda seu horário e fotografias de Mark Powell, que retratam paisagens pintadas em igrejas evangélicas na Cidade do México.

ONE FOOT APART
Quando: abertura hoje, às 19h; de seg. a sex., das 10h às 19h, e sáb., das 10h às 17h; até 7/11
Onde: galeria Leme (r. Agostinho Cantu, 88, tel. 3814-8184); livre
Quanto: entrada franca

http://www1.folha.uol.com.br/folha/ilustrada/ult90u631731.shtml

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